A noite repousava sobre a Mansão Xavier como uma manta densa e pesada. Lá fora, os relâmpagos riscavam o céu com sua fúria silenciosa, iluminando brevemente o quarto escuro em que James se revirava na cama. Seu corpo tremia, o rosto suado, e o peito apertado como se algo invisível o esmagasse de dentro para fora. Ele conhecia aquela sensação: a ansiedade rastejava como uma sombra por baixo da pele.
Spike, na cama ao lado, roncava despreocupado.
Sem fazer barulho, James sentou-se na cama, respirando com dificuldade. Precisava de ar. Calor, angústia e um peso invisível o sufocavam ali dentro. Puxou uma camiseta, vestiu-a com mãos trêmulas e saiu do quarto em silêncio, deixando a escuridão para trás.
O corredor da mansão estava envolto em penumbra, exceto pelos clarões ocasionais dos relâmpagos que desenhavam sombras breves nas paredes. O ar estava diferente, carregado — como se algo estivesse prestes a acontecer. Cada passo de James ecoava baixinho nos corredores vazios. Desceu as escadas sem encontrar ninguém. O som distante dos trovões aumentava a cada instante, reverberando nos ossos.
Com um leve rangido, ele abriu a porta da frente.
Do lado de fora, o vento da madrugada o acolheu com suavidade. Seus cabelos se bagunçaram sob a brisa. James inspirou fundo. O ar fresco limpou parte do caos em sua mente. Andou devagar pelos jardins, com as mãos nos bolsos, enquanto os relâmpagos iluminavam brevemente o céu e os arbustos molhados pelo orvalho.
Aos poucos, sua respiração ficou mais tranquila.
A mansão parecia distante agora. Ele seguia em direção aos bosques silenciosos, onde tudo parecia suspenso no tempo. Caminhava com passos cuidadosos, até que algo lhe chamou a atenção: uma luz diferente dos relâmpagos. Algo mais... sombrio. Místico.
Adiantou o passo, atraído pela presença silenciosa daquela estranha luminosidade.
Ali, no centro da clareira, uma figura loira estava sentada em posição meditativa, cercada por um círculo de sal. Velas flutuavam lentamente ao seu redor, como pequenas sentinelas mágicas. A cena era tão surreal que James parou abruptamente, arregalando os olhos vermelhos.
A garota não parecia perceber sua presença.
Por um momento, James desviou o olhar — talvez para se certificar de que não estava sonhando. Quando voltou a encará-la... ela havia desaparecido. O círculo estava vazio. Nenhum vestígio.
Foi então que sentiu uma mão tocar seu ombro.
Ele pulou, girando sobre os calcanhares — e deu de cara com ela. A garota loira agora estava de pé, bem diante dele, com os olhos intensos o fitando diretamente. James a reconheceu imediatamente.
James: Illyana... Porra, de onde você saiu, você me deu o maior susto.
Ela o encarava com seriedade. A luz das velas — que continuavam flutuando ao fundo — refletia nos olhos azuis da mutante, dando-lhes uma profundidade misteriosa.
Illyana: Não queria te assustar, mas você não deveria estar aqui.
James coçou a cabeça, nervoso.
James: Eu sei.
Eu só precisava dar uma volta em busca de... paz de espírito.
Illyana: Então você veio ao lugar errado, acredite, você pode encontrar de tudo aqui nessa floresta a essa hora da noite menos paz de espírito.
O tom dela era sombrio, quase malicioso. James sentiu um calafrio subir pela espinha.
James: De tudo, você disse?
Ela manteve-se em silêncio por alguns instantes, antes de responder, ainda encarando o círculo no chão.
Illyana: Sim. (ela disse finalmente) De tudo.
James: Espera um pouco, você também é aluna, você também não deveria estar aqui.
Illyana: Você vai me dedurar?
A frieza da pergunta fez James engolir em seco. O ar ao redor parecia mais denso.
James: N-não... Claro que não.. Eu não sou dedo duro.
Illyana o encarou mais um pouco, como se o analisasse. Então, deu alguns passos para longe, aparentemente satisfeita com a resposta.
James: Se me permite perguntar? O que você está fazendo aqui exatamente?
Apesar do tom casual, havia um nítido receio na voz de James. Ele não admitiria, mas Illyana lhe causava certo medo.
Ela hesitou, então respondeu com a voz baixa e grave:
Illyana: Eu queria fazer um ritual, mas você perturbou minha concentração, agora tudo está arruinado.
James: Me desculpe, não foi minha intenção... R-ritual... que tipo de ritual?
James se lembrava de boatos sobre Illyana ser uma bruxa. Nunca dera ouvidos... até agora.
Illyana: Era um ritual para convocar uns espíritos, mas agora provavelmente já não vai dar certo.
A revelação deixou James atônito. Mas antes que pudesse formular outra pergunta, ela se afastou e voltou para o círculo. Ele a seguiu, cauteloso, ainda sentindo os batimentos acelerados.
James: Hum... Illyana... Você conhece algum ritual que possa diminuir a ansiedade?
Ela se virou, surpresa com a pergunta.
Illyana: Ritual não,
Mas eu tenho Escitalopram no meu quarto. Se quiser.
James ficou em silêncio, absorvendo a resposta. Illyana o observava com um sorrisinho frio no canto da boca.
Illyana: Mas eu conheço um lugar no qual você poderá se distrair um pouco, posso te levar lá se quiser, isso se me prometer que não irá se borrar nas calças.
James hesitou. A proposta era bizarra, mas algo nela o chamava.
James: Você... vai me levar a algum lugar?
Ela o avaliou cuidadosamente, como uma criatura testando a presa.
Illyana: Sim, conheço um lugar. Um lugar onde você poderá se divertir, se quiser.
Ela se agachou levemente, ficando frente a frente com James.
Illyana: Mas preciso saber, você tem coragem?
Havia um quê diabólico em sua voz. James hesitou por alguns segundos, depois murmurou:
James: Eu tenho coragem.
Illyana: Eu não acredito em você... mas venha... pegue a minha mão.
A pele dela era quase translúcida à luz pálida das velas. James olhou a mão estendida, respirou fundo... e a segurou. O toque era gélido.
Illyana: Seu coração está quase saindo fora do peito.
Ela zombava, enquanto o puxava para dentro do círculo. O chão sob os pés de James começou a brilhar com uma luz azul intensa.
James: Por que... está tão gelado aqui?
Illyana: Aproveite o clima frio enquanto pode garoto, porque o lugar para onde vamos, é extremamente quente.
James nem teve tempo de reagir.
Num lampejo azul, a clareira desapareceu.
Quando ele piscou, já estava em outro lugar.
Um inferno vivo.
O céu era vermelho sangue. A terra, coberta por cinzas e lava adormecida. Criaturas grotescas vagavam livremente pelas rochas retorcidas. O ar era espesso e quente, como a respiração de um monstro adormecido.
James: O que– onde é... isso aqui?
Illyana: Esse aqui é o meu lugar favorito de todos... Bem-vindo ao Limbo.
Ela disse com um sorriso quase demoníaco.
James girava a cabeça em todas as direções. Aquilo era real? Monstros, fogo, gritos distantes. Era como caminhar dentro de um pesadelo.
James: Isso... é real..?
Cinzas caíam como neve. A geologia do lugar lembrava a boca de um vulcão. As criaturas os observavam à distância. Illyana parecia alheia ao caos. Estava confortável ali. Estava... em casa.
James: Como é possível que você... pareça tão calma aqui?
Ela voltou a olhar para ele. Seus olhos brilhavam com estranha serenidade.
Illyana: Essa é minha casa, garoto.
E então, o Limbo os envolveu por completo.
A revelação de Illyana pegou James completamente desprevenido. Seus olhos se arregalaram e ele a encarou como se estivesse vendo-a sob uma nova luz, espantado.
James: Como assim, sua casa? Você cresceu... aqui no Limbo?
Illyana se afastou alguns passos, encostando-se à borda rochosa de uma cratera vulcânica. A fumaça quente subia lentamente às suas costas, criando uma moldura quase mitológica.
Illyana: Não idiota, eu nasci na Rússia, com meus pais e meu irmão Piotr. No entanto, quando eu completei seis anos, fui sequestrada por um demônio que viu em mim um grande potencial mágico e me queria como sua discípula. Desde então, passei a viver a maior parte da minha vida aqui no limbo. Esse lugar passou a ser parte de mim. E hoje eu me sinto mais confortável aqui "embaixo" do que lá em "cima".
Sua voz saiu fria, quase indiferente, como se estivesse narrando a história de outra pessoa. Mas James sabia que aquilo era real.
Ele engoliu em seco. Ficou em silêncio por um tempo, tentando absorver a confissão intensa.
James: Mas porque você... volta para 'cima', então? Se você se sente mais à vontade aqui, por que não permanece aqui de vez?
Illyana desviou o olhar para o céu rubro, um toque de vulnerabilidade atravessando seu rosto pela primeira vez.
Illyana: Acho que sentiria falta do meu irmão Piotr. Ele já perdeu nossos pais. Não seria justo se ele me perdesse também. Além do mais, eu já me acostumei a viver entre dois mundos.
James assentiu devagar, ponderando as palavras dela. A imagem de alguém presa entre duas realidades o tocava de maneira profunda.
James: Mas como é... viver entre dois mundos?
Illyana: Solitário... agora chega de perguntas, eu não te trouxe aqui para você me entrevistar.
O tom sarcástico e irritado cortou o ar. James recuou levemente, arrependido de ter forçado a conversa.
James: Então... para que me trouxe aqui exatamente?
Ela o observou em silêncio. Seus olhos tinham o brilho de alguém que sabia mais do que dizia. Um sorriso sinuoso apareceu nos lábios dela enquanto se aproximava de James, com a confiança predatória de quem está no controle.
Illyana: Eu trouxe você aqui, garoto... pois achei que você poderia se divertir.
James piscou, sem acreditar no que acabara de ouvir.
James: Me divertir? Aqui? No inferno? Com todo respeito, mas acho que o nosso conceito de diversão são completamente diferentes.
Illyana: Não seja ridículo. Não estamos no inferno. O Limbo é uma dimensão mágica. Na verdade, ele foi criado para ser uma prisão para feiticeiros demoníacos que foram corrompidos por energia das Trevas.
James continuava estático. A paisagem ao redor — chamas ao longe, ventos cortantes e criaturas grotescas — parecia tudo, menos divertida.
James: Bem... mesmo se não for o inferno, não consigo pensar em nada divertido para se fazer aqui. Essa parece ser a pior prisão do universo.
Illyana não respondeu. Ao invés disso, ergueu os dedos ao rosto e soltou um assobio firme e agudo. James franziu o cenho, confuso.
Do horizonte flamejante, surgiu a sombra imensa de algo colossal. Um dragão de escamas púrpuras rasgou o céu, soltando fumaça pelas narinas. Ele desceu até eles com graciosidade, os olhos amarelos brilhando com inteligência.
James recuou instintivamente.
James: É... é ele seu animal de estimação?
Tentou soar sarcástico, mas sua expressão boquiaberta dizia outra coisa.
Illyana: Este é Lockheed, um velho amigo.
Ela acariciou o focinho do dragão com delicadeza, e a criatura fechou os olhos em contentamento. Era como ver uma guerreira mítica com sua besta lendária.
James: Lockheed, então.
James: Ele é... dócil?
Illyana: Eu sou a única que ele deixa tocá-lo. Mas você pode tentar a sorte. O pior que pode acontecer é você voltar para a mansão sem um braço.
James tragou em seco. Mas, desafiando o próprio medo, estendeu lentamente a mão. Lockheed permaneceu calmo.
James: Só tentando a sorte.
Illyana: Você parece desapontado. Esperava que ele fosse te devorar?
James: Bem, devo admitir que não esperava que ele fosse ser tão... amigável.
Illyana: Geralmente ele não é. Ele deve ter sentido algo diferente em você, algo que o agradou.
A voz dela pareceu levemente ressentida, como se estivesse dividindo algo valioso. Então, ela se virou para o dragão, decidida.
Illyana: Bom, já que Lockheed foi com a sua cara, ele não irá se importar se você montar nele.
Antes que James pudesse dizer qualquer coisa, ele se viu teletransportado com ela para as costas do dragão.
James: Como você...?
Illyana: Segure-se firme. Voar nas costas de um dragão pode ser uma experiência turbulenta. Você pode se agarrar na minha cintura se quiser. Mas se apertar demais ou fizer alguma gracinha, eu te jogo lá embaixo e ainda ordeno aos demônios para te devorarem.
James nem pensou duas vezes. Largou as escamas e agarrou a cintura dela com firmeza, tentando manter o equilíbrio enquanto Lockheed batia as asas poderosas e os fazia subir pelos céus abrasados.
O vento quente cortava o rosto de James. Ele fechava os olhos, abrindo-os apenas para vislumbrar a paisagem assustadora do Limbo.
James: Illyana, como você aprendeu a voar em um dragão, afinal?
Illyana: Lockheed é praticamente meu irmão.
Ela olhou de relance para James, depois voltou os olhos ao caos abaixo.
Illyana: Eu conheci ele quando eu era muito pequena. Ele sempre ajudava a cuidar de mim nos momentos mais...
Ela interrompeu a própria fala, como se aquilo ainda doesse demais.
James respeitou o silêncio. Ele notou que havia dor ali. E respeito era o mínimo que ela merecia.
Lá embaixo, criaturas demoníacas se arrastavam pelas rochas negras e cinzas em chamas. Os olhos de James se estreitaram.
James: Illyana, essas criaturas lá embaixo, o que são exatamente?
Illyana: Demônios. São cruéis e impiedosos. Não existe bondade ou compaixão neles.
James: E eles não atacam?
Illyana: Não enquanto eu estiver aqui. Não sei se você já percebeu, mas os demônios têm medo de mim.
James: Por que eles teriam medo de você?
Illyana: Porque eles sabem o que é melhor para eles. Além do mais, eles são meus servos. Devem obediência a mim.
James arregalou os olhos.
James: Seus servos?
James: Quer dizer que você comanda os demônios?
Illyana: Não só os demônios, como tudo que existe por aqui. Eu sou a rainha dos demônios e o Limbo é o meu reino.
James parecia em choque. Era muita informação. A paisagem abaixo mudava, revelando uma construção ameaçadora.
James: Hum, e por acaso, aquele é o seu castelo?
Illyana: Não exatamente. Aquele é o castelo de Belasco.
Houve uma mudança clara em sua voz. Sua postura endureceu.
Illyana: Belasco é o demônio feiticeiro que me sequestrou. Aquele castelo já foi o meu lar por um tempo. Mas agora está completamente vazio.
James captou o peso emocional naquelas palavras. Mas respeitou o silêncio.
Lockheed sobrevoou por mais algum tempo até pousar suavemente no topo de uma montanha negra como carvão. Illyana os teletransportou ao chão e acariciou a asa do dragão.
Illyana: Obrigada, Lockheed. Pode ir descansar agora.
James observou Lockheed alçar voo novamente, desaparecendo entre as nuvens do Limbo.
James: Essa foi uma experiência e tanto.
Illyana: É uma sensação única, não é?
Illyana: Poderia passar horas voando com ele.
James admirou a expressão nostálgica em seu rosto.
James: Você realmente gosta desse animal, não é?
Illyana: É óbvio que eu gosto dele.
Illyana: Eu passei boa parte da minha vida sozinha no Limbo. Ele era meu único amigo. Era a única coisa que me mantinha sã durante todo aquele tempo.
Ela sentou-se na beira do abismo. James sentou-se ao lado, cauteloso.
James: Você mencionou que passava muito tempo sozinha aqui no Limbo...
Como era a sua vida antes de conhecer Charles Xavier?
Illyana demorou. Fixou o olhar no horizonte e respondeu, quase em sussurro:
Illyana: Minha vida antes de Charles Xavier, era uma porcaria.
James: É, a minha também.
Houve um momento de silêncio profundo.
James: Mas me responda uma coisa. Se você gosta tanto da Academia, por que vive fazendo coisas que podem levá-la a ser expulsa dela? Sua fama na mansão não é das melhores.
Illyana: Gosto de viver perigosamente.
Illyana: E então? Agora você está se divertindo?
James: Por mais incrível que pareça, acho que sim.
Ela gargalhou, debochada.
Illyana: Uau, você realmente tem um gosto bastante peculiar, não tem?
Ela se recostou contra a rocha, relaxada.
James: Illyana... seja sincera, você não me trouxe aqui simplesmente para diversão, não é? Tem alguma coisa por trás disso que você não está me contando.
Illyana: Ora, ora, ora, você não é tão burro quanto eu achei que fosse.
James a observava. A expressão dela era um enigma prestes a ser decifrado.
Illyana: Eu te trouxe aqui por causa dos seus olhos.
James: Meus olhos?...Por quê? É porque ele combina com o céu deste lugar?
Illyana: Não, tonto. Não foi por causa da aparência deles, mas sim pelo que eu vi refletido neles.
James permaneceu em silêncio, atento.
James: Isso é estranho. O que exatamente você viu em meus olhos?
Illyana: Tragédia, dor, sofrimento... e acima de tudo, culpa. Você acha que fez algo terrível e não consegue se perdoar por isso. Há uma escuridão dentro de você, James, e essa escuridão está te cegando, impedindo de ver além das tragédias.
James sentiu um calafrio. Era como se ela tivesse vasculhado sua alma.
E o pior... era que tudo que ela disse estava certo.
James permanecia imóvel. O rosto pálido, os olhos arregalados, a respiração descompassada. As palavras de Illyana ainda ecoavam na mente dele como um trovão distante. Era como se ela tivesse aberto sua alma com um simples olhar. Como se tivesse invadido o cômodo mais escuro de sua consciência e lido cada lembrança dolorosa que ele tentou enterrar.
Uma parte dele queria acreditar que ela estava errada. Queria. Mas a outra… a outra sabia que ela estava absolutamente certa.
Ele a fitava em silêncio, olhos vermelhos como o céu do Limbo, carregados de incredulidade e angústia.
Illyana: Eu te trouxe para o limbo, para você ver com os próprios olhos a verdadeira maldade, o caos, as trevas, a escuridão, e perceber que comparado com o mal que você acha que existe dentro de você, que você não é um monstro, porque aqui vivem os verdadeiros monstros, aqueles que não merecem ser perdoados, a escória do mundo, esse definitivamente não é o seu lugar James, você merece ser perdoado, mas primeiro, você precisa se perdoar.
Cada palavra atingiu James como uma flecha cravada no peito. Ele baixou o olhar, pensativo. A verdade cruel em suas palavras o desmontava por dentro. Por tanto tempo, ele carregou a culpa como um fardo inevitável, um castigo autoimposto. Nunca pensou em perdão. Nunca considerou que merecia isso.
Mas ali, naquele mundo de trevas, onde os verdadeiros monstros rastejavam... ele começou a duvidar de sua própria condenação.
Illyana o observava com atenção. E, nesse momento, James ergueu os olhos para ela. Havia algo diferente neles agora. Algo mais... humano.
James: Mas... o que eu fiz... eu... não... eu não mereço... eu não consigo me perdoar Illyana, não dá...
Sua voz falhou. Ele lutava contra as lágrimas que ameaçavam escapar. Não queria se mostrar fraco, não na frente dela.
Illyana: Tá vendo aqueles demônios lá embaixo? Sabia que alguns deles já foram humanos um dia? Eles fizeram coisas terríveis, e ao invés de seguirem em frente, eles deixaram que a culpa pelo que fizeram os destruísse. Assim como você, eles não se achavam dignos do perdão. E na verdade não eram mesmo. A escuridão os consumiu completamente, limpando qualquer rastro que restasse de sua humanidade. A questão é que você não é um demônio. Você ainda tem escolha.
James voltou a olhar para baixo. Lá estavam eles: os demônios. Grotescos, distorcidos, famintos. A personificação da ruína interior. Seria esse o destino dele também, se continuasse permitindo que a culpa o devorasse?
Ele respirou fundo. E voltou os olhos para Illyana, ainda relutante, mas menos perdido.
James: Estou começando a entender o que você quer dizer, mas se você soubesse o que eu fiz, talvez mudasse a opinião que tem sobre mim.
Illyana revirou os olhos e bufou.
Illyana: Você é tonto? Olhe ao seu redor. Eu sou conhecida como a rainha dos demônios. Fui criada no meio dessas criaturas grotescas. Passei minha infância toda correndo por esse mundo infernal. Cara, nós acabamos de voar na porra de um Dragão. Você acha mesmo que eu me assustaria com qualquer coisa que você já tenha feito, por mais bizarra ou terrível que fosse? Garanto a você que eu já devo ter feito coisa pior. Não estou em condição de julgar ninguém.
O silêncio se instalou novamente. Mas agora era outro tipo de silêncio. Não mais opressor. Era um silêncio de transformação.
James assentiu lentamente, como se finalmente reconhecesse uma verdade que fugia dele há muito tempo.
James: Você tem razão, eu preciso perdoar a mim mesmo e seguir em frente.
Illyana: Mas é claro, eu sempre tenho razão. Até mesmo quando estou errada.
Ela ergueu o queixo com falsa arrogância, fazendo James soltar um leve riso abafado. Mas a curiosidade ainda pulsava em sua mente.
James: Como você fez isso? Como soube exatamente como eu me sentia? É algum tipo de truque? Feitiçaria? Os boatos sobre você estavam certos, você é mesmo uma bruxa?
Illyana riu de verdade dessa vez.
Illyana: Eu não sou uma bruxa, isso não é um truque...
Ela hesitou por um momento, procurando as palavras certas.
Illyana: É só... Magia.
Mas antes que James pudesse responder, um estrondo cortou o ar. Uma criatura monstruosa se materializou bem à frente deles — um demônio colossal, feito de pedra e sombra, com asas de morcego, olhos ocos e famintos.
James congelou. O demônio voou em sua direção num impulso brutal.
Não houve tempo para reação.
Illyana se lançou na frente dele com reflexo felino. Seus braços transformaram-se em metal reluzente, formando uma armadura mística. Uma espada espiritual cintilou em sua mão, surgindo do nada. Com um golpe certeiro, ela cortou o demônio ao meio — e ele se desfez em cinzas antes de tocar o chão.
Illyana: Demônios. Toda família tem que ter um idiota que insiste em se rebelar.
Falou com desdém, como se aquilo fosse apenas mais uma segunda-feira no inferno.
James ainda estava sem fôlego. Seu coração batia acelerado e sua mente ainda lutava para entender o que acabara de presenciar.
James: Uau... isso foi... incrível. Assustador, é claro, mas incrível. E você tem uma espada? É claro que você tem uma espada! Isso é... isso é... Incrível.
Ele passou as mãos pelos cabelos, rindo nervoso.
Illyana: Acho que você já teve diversão demais por hoje. Tem um limite de tempo que uma pessoa pode passar no limbo antes de enlouquecer completamente. Acho que você chegou no seu limite. É melhor que eu te devolva para sua cama.
Ela o observou com um olhar mais suave, quase protetor. E então, como num piscar de olhos — a realidade se desfez.
James piscou. Estava deitado. Em sua cama. No escuro.
Sentou-se rapidamente, atordoado. Olhou ao redor. Seu quarto. O teto. As paredes. A janela.
Ele se levantou num impulso e andou até a janela. O céu lá fora ainda estava escuro, silencioso. Seu coração ainda batia acelerado. Ele virou-se para olhar ao redor, como se esperasse ver Illyana surgir do nada.
Nada.
O único som era a respiração suave de Spike, dormindo tranquilamente na cama ao lado.
James pegou o celular. Quase 3 da manhã.
Sentou-se na beira da cama, os pensamentos girando como um redemoinho dentro de sua cabeça. O Limbo. Lockheed. A espada. O demônio. E... as palavras de Illyana.
Aquelas palavras ainda o perseguiam, mas agora, com menos peso. Elas ecoavam como um lembrete.
Talvez, pela primeira vez em muito tempo... ele não se sentisse um monstro.
E isso era um começo.
Os tênis de James derraparam levemente no piso brilhante da sala de aula quando ele entrou apressado, deslizando os pés no chão como quem tentava parar uma queda. O sinal havia tocado fazia alguns minutos, e o silêncio na sala era quebrado apenas pelo som abafado de seus passos e da respiração ofegante que escapava de sua boca entreaberta.
O rosto dele estava corado, encharcado de suor e cansaço. Dormira demais — de novo — e por pouco não perdeu a aula. Mas tinha conseguido. Chegou antes que a porta se fechasse completamente.
James: Desculpa pelo atraso senhorita Grey, eu perdi a hora.
Falou arfando, tentando parecer menos desesperado do que realmente estava.
Jean Grey o observava de pé ao lado da lousa, braços cruzados. Seu olhar era calmo, mas levemente reprovador. Ela inclinou a cabeça, como se já esperasse por aquele tipo de entrada.
Jean: Você sabe que não gosto de atrasos, Sr. Jones.
A voz dela era firme, porém suave, com aquela autoridade que não precisava de gritos.
James: Eu sei.
Respondeu com a respiração ainda descompassada, caminhando rapidamente até sua carteira. Sentou-se ao lado de Roberto, que o recebeu com um sorriso descontraído. James jogou o estojo sobre a mesa e começou a puxar o caderno da mochila enquanto tentava se recompor.
Os olhares de alguns colegas ainda estavam voltados para ele. Jubileu, ao fundo, revirou os olhos com um suspiro, mascando seu chiclete com gosto visível de tédio e irritação.
Roberto: Ei.
Murmurou, cutucando James com o cotovelo. James tentou retribuir o sorriso, ainda tentando recuperar o ar. Olhou para frente, onde Jean escrevia o tema da aula no quadro negro com uma caligrafia bonita e fluida: "Entendendo os mistérios da Psique Humana."
Jean se aproximou do centro da sala com sua postura sempre elegante, a voz clara cortando o silêncio.
Jean: Bom dia, alunos.
Jean: Hoje iremos discutir um assunto interessante, que acredito que todos vocês tenham interesse.
Ela se virou de costas para os alunos, escrevendo algumas palavras-chave com uma caneta no quadro.
Jean: Vamos falar sobre a mente humana, seus mistérios e segredos.
Enquanto ela escrevia, James lutava para manter os olhos abertos. Ainda sentia os efeitos da noite mal dormida — ou melhor, da viagem ao Limbo, que parecia mais um delírio febril do que algo real. Seus dedos passavam nos olhos cansados enquanto tentava focar.
Roberto: Cara, o que tá rolando? Você tá muito distraído hoje, parece que passou a noite em claro.
James virou-se para ele, improvisando a primeira desculpa que surgiu.
James: É, e passei mesmo, o idiota do Spike que roncou a noite toda, ele é insuportavelmente barulhento.
Mentira. Mas ele não queria falar de Illyana. Nem do inferno.
Roberto: Cara, não sei como você aguenta dividir o quarto com aquele babaca. Eu, no seu lugar, já teria pedido transferência de quarto há muito tempo.
James: Também não é pra tanto, ele é só barulhento demais.
Roberto: Então vê se dorme com um tampão no ouvido na próxima vez.
Sugeriu, dando mais um leve cutucão no braço de James.
James voltou a prestar atenção quando Jean recomeçou a fala, andando pela sala entre as fileiras de carteiras.
Jean: A mente humana é uma das coisas mais complexas do universo.
Jean: Ela carrega consigo memórias, emoções, desejos, habilidades, traumas e até mesmo... Poderes especiais.
Os olhares se cruzaram. Jean mirava os alunos diretamente, e alguns deles se remexiam em desconforto. James notou Jubileu revirando os olhos mais uma vez, mas logo disfarçou e voltou a fingir atenção.
Jean: Essa complexidade se amplifica quando o assunto é mente mutante.
Ela andava com passos suaves, mas determinados.
Jean: Não é segredo para ninguém que a mutação traz consigo habilidades especiais que podem ser tão variáveis quanto poderosas...
Voltando para o quadro, ela escreveu com calma no topo da lousa: PODER PSÍQUICO.
Mais tarde, James deixava a sala de aula com uma leve dor latejante na cabeça. Massageava as têmporas com os dedos, tenso. As palavras da aula se misturavam com as lembranças do Limbo, tornando tudo ainda mais difícil de digerir.
Enquanto pegava seu almoço na fila do refeitório, cruzou o olhar com Illyana.
Ela não sorriu. Apenas o fitou com seriedade — e antes mesmo que James abrisse a boca para perguntar qualquer coisa, ela respondeu:
Illyana: Não, não foi um sonho.
E se afastou.
James ficou parado por alguns segundos, atônito. Aquilo confirmou tudo.
Ele caminhou até a mesa onde se sentava com Roberto e os outros, os olhos vasculhando o refeitório atrás de Illyana. Mas ela já havia desaparecido.
Jubileu: Você perdeu alguma coisa? Ou alguém?
Disse com sarcasmo, sugando o canudo de sua coca diet enquanto o observava com atenção exagerada.
James: Ah, nada não... Só tava tentando descobrir algo.
Tentou se manter vago, o suficiente para não levantar mais perguntas. Jubileu pareceu incomodada com a resposta, mas não insistiu.
Roberto: Então galera, tudo certo para a escapada desta noite, né?
Baixou a voz enquanto se inclinava na direção do grupo. Sam, Dani e Jubileu assentiram com a cabeça. James, no entanto, ficou confuso.
James: Escapada?
Roberto: Porra, cara, eu pensei que eu já tinha falado sobre isso com você, foi mal.
James: Sem problemas.
Disse tentando não demonstrar que se sentia deixado de lado.
Roberto percebeu o incômodo e logo tentou contornar.
Roberto: Olha, a gente tá planejando uma escapada noturna, hoje, só pra se divertir, tá ligado? Então, tá afim de ir?
Cutucou o braço de James novamente, como se convidar com o toque tornasse a coisa mais oficial.
Todos os olhos na mesa se voltaram para ele, esperando sua resposta. Jubileu fingia indiferença, ocupada com suas batatas.
James: Sim, é claro... Hum, mas aonde vocês estão pensando em ir?
Roberto: No Fascínio. A cara, você vai se amarrar, é uma balada que fica no centro, uma das mais frequentadas da cidade. E o melhor de tudo: nós somos Vips, porra. Fica tranquilo que eu vou bancar tudo, vai ser demais.
Disse com empolgação, balançando os ombros de James.
Danielle: Ah cara, vai ser brabo.
Sam: É, essa balada é bem loka, a gente vai se divertir pra caramba.
Jubileu: Só que isso é segredo. Ninguém mais pode saber disso, porque se formos pegos fugindo, podemos até ser expulsos. Então boca fechada.
Olhou diretamente para James com um ar de ameaça disfarçada.
Sam: Essa é boa, a garota mais fofoqueira da escola pedindo a alguém para manter segredo.
Zombou, rindo. Jubileu respondeu à provocação mostrando a língua e fazendo uma careta.
Jubileu: Calado, cabeça de algodão doce.
E voltou a devorar suas batatas como se nada tivesse acontecido.
Roberto: Então tá marcado. A gente se encontra na sala de estar após o toque de recolher, que é precisamente às dez e meia...
Ele virou-se para James, o rosto agora mais sério.
Roberto: Você tem que dar um jeito de sair sem que o idiota do seu colega de quarto perceba. A boca de Spike é maior que a sua arrogância. Se ele desconfiar de algo, pode estragar tudo.
A simples menção do nome fez James revirar os olhos, visivelmente irritado.
James: Não precisa me lembrar disso.
Esfregou os olhos cansados.
James: Mas... Tenho certeza que consigo despistar ele.
Roberto: Você fala como se fosse fácil despistar aquele delinquente juvenil, irmão.
James: Eu dou conta, confie em mim.
Disse com um leve sorriso cansado, mastigando o resto da comida sem muito entusiasmo.
A noite havia se arrastado lentamente, e James retornava ao dormitório com o corpo moído após um dia cansativo de aulas intensas. Ele empurrou a porta do quarto, esperando encontrar apenas silêncio e talvez Spike dormindo — mas se deparou com algo bem diferente.
Assim que entrou, deu de cara com Spike pendurado em uma barra de exercícios recém-instalada no meio do quarto. Ele estava sem camisa, os músculos tensionados sob a luz fraca, o suor escorrendo lentamente pelas tatuagens que marcavam sua pele como traços tribais e cicatrizes de batalha. Seus braços se flexionavam com precisão a cada puxada, os bíceps em evidência. O som do esforço preenchia o espaço silencioso.
James parou no meio do caminho, pego de surpresa. Por um momento, ficou apenas observando, meio hipnotizado, tentando controlar a súbita agitação interna. Não era assim que ele imaginava ser recebido naquela noite. E mesmo que tentasse disfarçar, seu olhar o traía.
James: Malhando essas horas?
Perguntou num tom crítico, tentando parecer indiferente.
Spike soltou um suspiro cansado enquanto ainda se mantinha pendurado. Fez mais algumas repetições antes de soltar lentamente a barra e descer com firmeza. Pegou uma toalha próxima e começou a secar o rosto, depois o peito, os braços.
Spike: É, tava com falta de tempo hoje...
Respondeu casualmente, passando a toalha pelo pescoço. James não resistiu e permitiu-se uma boa olhada. Spike estava distraído demais para notar de imediato.
O brilho do suor sobre os músculos bem definidos, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante — tudo parecia uma cena de provocação involuntária. Spike então pegou uma garrafa e deu um longo gole d’água. Assim que abaixou a garrafa, notou o olhar de James. Seu semblante mudou — arqueou uma sobrancelha com malícia e encarou-o direto.
Spike: Estava admirando algo?
A pergunta veio carregada de provocação. James despertou da distração abruptamente.
James: Hum? ha... sim... aquela barra não estava ali quando eu saí hoje de manhã.
Desviou o olhar e o foco da conversa, tentando fugir.
Spike: Ela apareceu magicamente, é?
Disse, cruzando os braços e continuando a encarar.
Spike: Ou você tá fugindo da questão?
A sobrancelha voltou a se erguer. James ficou mudo por alguns segundos, sem saber exatamente como sair daquilo.
James: Talvez eu só não queira dar muita moral para suas provocações.
Levantou as mãos num gesto de quem se rende, envergonhado.
Spike soltou uma breve risada. Estava divertido com a situação, os braços ainda cruzados, o sorriso enviesado nos lábios.
Spike: Só achei que você era mais... Bem... Mais direto do que isso.
Provocou novamente, cutucando o ego de James.
James: Você quer que eu seja direto? Então tá, vou ser direto...
A resposta veio com ousadia. James deu alguns passos, diminuindo a distância entre eles.
James: Não consegui tirar os olhos de você desde o momento que eu entrei no quarto porque você tá gostoso pra caralho, suado desse jeito e tudo o que eu queria fazer agora, era pular no seu colo e meter a minha língua na sua boca. Mas não vou fazer nada disso porque você não passa de um idiota arrogante e eu te odeio muito.
As palavras saíram como uma explosão inesperada, e Spike ficou estático. Os olhos arregalados, surpreso com a sinceridade de James — aquilo não era o que esperava ouvir dele. Silêncio.
Spike: Então você me acha gostoso?
James riu, desviando o olhar.
James: É claro que não, o quê? Você acreditou em tudo que eu acabei de dizer?
Ele riu mais alto, com uma gargalhada leve.
James: Eu tava zuando com a sua cara, idiota, só falei o que você gostaria de ouvir.
O tom era provocativo, mas por dentro, ele sabia que não estava sendo totalmente honesto.
A expressão de Spike se transformou. Havia algo de irritado — e ferido. Os punhos se cerraram lentamente, e ele deu um passo à frente, parando bem perto de James. O rosto sério, tenso.
Spike: Porra, mano, isso não é uma brincadeira engraçada.
A voz grave soou perto demais. Ele agarrou a camiseta de James com força, empurrando-o contra a parede com um baque seco.
James ofegou, surpreso, mas se manteve firme, olhando diretamente nos olhos dele, sentindo a respiração quente de Spike contra o seu rosto.
James: E agora seu imbecil? O que vai fazer? Você vai me bater?
A provocação aumentava. Spike cerrou o maxilar, ainda mais irritado, e apertou o tecido com força.
Spike: Talvez eu devesse te bater mesmo, pra ver se entra algum juízo nessa sua cabeça burra.
James não desviou o olhar, mas seus olhos começaram a brilhar em um tom escarlate intenso. Aquilo fez Spike recuar — ele sabia reconhecer um sinal de perigo. Soltou James de imediato e deu um passo atrás.
Spike: Você é um grandíssimo imbecil, sabia disso?
Disse com raiva contida.
James: Eu vou tomar um banho.
Soltou em tom seco, passando por Spike como se ele não estivesse ali. Entrou no banheiro e bateu a porta com força.
Spike soltou um rosnado baixo de frustração. Andou até a cama e jogou-se sobre ela, cobrindo os olhos com o braço. Respirava fundo, tentando se acalmar.
Do outro lado da porta, James encostou as costas contra a madeira, fechando os olhos com força. A culpa começava a pesar.
O plano tinha funcionado.
Ele precisava despistar Spike para poder sair do quarto sem levantar suspeitas — e provocar seu orgulho era a única forma. Spike jamais o seguiria depois daquilo. Mas algo no modo como ele reagiu... a dor nos olhos dele... aquilo incomodava James mais do que deveria.
Meia hora depois, às 22h35, James deixou o dormitório sorrateiramente. Aproveitou o momento em que Spike fora ao banheiro e escapou, com passos leves e silenciosos. Não foi difícil. O plano tinha dado certo — mas não sem um custo.
James saiu do dormitório exatamente às dez e trinta e cinco da noite, minutos depois do toque de recolher. O corredor estava mergulhado em sombras, e o silêncio reinava absoluto. Seu coração batia acelerado, mas o rosto se mantinha firme. A discussão com Spike, por mais amarga que tivesse sido, funcionou: o garoto não lhe dirigira sequer um olhar o resto da noite. James aproveitou a breve ida de Spike ao banheiro e escapou.
Caminhava pelos corredores com cautela, descendo as escadas devagar para não fazer barulho. Cada passo era um desafio contra o ranger do assoalho antigo. Finalmente, ao dobrar um dos corredores menos iluminados, avistou Roberto e o grupo à sua espera no local combinado.
Roberto fez um gesto discreto com a cabeça ao vê-lo se aproximar.
Roberto: Está nervoso, garoto?
Perguntou com um meio sorriso provocador.
James: O quê? Não, claro que não. Não sei se você sabe, mas não é a minha primeira fuga e com certeza não será a última.
Roberto riu com o tom confiante de James. Observava-o com aquele olhar atento, como se o estivesse redescobrindo.
Roberto: Ora, ora, eu ainda não conhecia esse seu lado rebelde. Eu gostei disso.
Ele apoiou um braço casualmente sobre os ombros de James enquanto caminhavam juntos.
James retribuiu com um leve sorriso, deixando-se envolver pelo clima de conspiração.
James: Você vai se acostumar, eu sou uma caixinha de surpresa ambulante.
Disse com humor e certo mistério.
Enquanto olhava ao redor, sentia o peso do ambiente silencioso.
James: É bem estranho aqui de noite.
Comentou num tom mais baixo.
Roberto riu mais uma vez, achando graça no comentário.
Roberto: Sim, é bem estranho mesmo... É uma boa oportunidade de fazermos as coisas.
Um sorriso cúmplice apareceu em seu rosto. O grupo, formado por James, Roberto, Sam, Dani e Jubileu, seguiu em silêncio até a garagem. Cada passo era rápido, preciso e silencioso. A porta da garagem foi aberta sem nenhum ruído. Lá dentro, o espaço amplo e bem organizado estava repleto de veículos e ferramentas usadas nas aulas de mecânica. O cheiro de óleo e metal preenchia o ar.
James ficou parado por um momento, os olhos percorrendo o local — até que pararam, fascinados, em um BMW conversível vermelho. O brilho da lataria o hipnotizou.
Roberto: Muito maneiro, não é? Só me faz um favor, não baba no banco, ele foi caro.
Disse com um sorriso irritante, abrindo a porta do carona com um gesto convidativo.
James revirou os olhos em indignação fingida, mas entrou no carro sem protestar.
James: Eu não babo.
Respondeu, ajustando o cinto com firmeza.
James: Ele é seu?
Perguntou, admirando o interior luxuoso do veículo. Os bancos de couro vermelho pareciam mais confortáveis que a própria cama do dormitório.
Roberto: Sim. Meu pai me deu de aniversário meses atrás, quando eu fiz 17. Como eu não pude ir pra casa, ele enviou o carro até o colégio. Está aqui na garagem desde então. Sorte a nossa.
Disse enquanto ligava o motor silencioso. As luzes internas acenderam suavemente, revelando cada detalhe refinado do carro.
Jubileu entrou no banco de trás e bateu a porta com mais força do que o necessário. Sentou-se ao lado de Dani e Sam, lançando um olhar azedo na direção de James. Claramente aquele era seu lugar habitual. James apenas deu de ombros.
Roberto o encarava há um tempo com um olhar fixo, quase hipnótico.
James: O que foi?
Roberto: Seus olhos... combinam com o carro.
James riu, tentando soar casual.
James: É, é, combina mesmo.
Jubileu: Ah, pelo amor de Deus, Roberto, dá pra parar de flertar e ir logo com isso? Estamos fugindo, esqueceu?
Disse com impaciência. Todos se viraram para ela após o comentário direto demais.
Sam e Dani riram. Roberto revirou os olhos.
Roberto: Eu nem estava flertando!
Defendeu-se, ajustando os retrovisores.
Roberto: Só estava fazendo um comentário, ué.
O carro começou a se mover com cuidado, ainda dentro do terreno da escola.
Roberto: Está com o controle, Dani?
Danielle: Tá na mão.
Ela apertou o botão, e os portões começaram a se abrir.
Jubileu: Você roubou isso?
Danielle: Prefiro pensar nisso como um empréstimo.
Sam: Cara, estamos ferrados. Fugimos da escola, roubamos um carro e...
Roberto: Ei, eu não roubei porcaria nenhuma. Não tem como roubar o que já é meu.
Sam: De qualquer forma, estamos fodidos.
Disse enquanto o carro deixava o terreno da escola e tomava a estrada para a cidade. A noite lá fora era calma, a brisa fresca cortava o calor abafado do dia.
Jubileu se inclinou para frente no banco de trás, observando James com um olhar inquisidor.
Jubileu: James, Se importa se eu perguntar de onde você veio antes de vir para o Instituto?
A pergunta caiu pesada. James não respondeu de imediato. Seu semblante mudou sutilmente. Roberto notou.
Roberto: Sim, ele se importa. Porra, Jubileu, dá um tempo com o interrogatório. Estamos aqui pra se divertir, e já tá na hora de começar a esquentar as coisas.
Disse, abaixando a capota do carro e ligando o som. Todos aprovaram com expressões animadas. Sam aumentou o volume do rádio, e uma batida pop preencheu o ambiente.
Jubileu cruzou os braços, arrependida por ter tocado num assunto sensível. O carro avançava rápido pela estrada pouco movimentada. De repente, uma nova música começou a tocar — Firework, da Katy Perry. Todos pareceram se animar de imediato.
Danielle e Sam se agitaram no banco de trás, virando-se para Jubileu.
Danielle: Vamos, Jubi, essa é a sua música, cara, seu momento, você tem que fazer!
Sam: Por favor, qual é, Jubi, não seja chata, faz só desta vez.
Jubileu: Nossa, vocês são insuportáveis.
Resmungou, irritada.
Roberto: Ah, qual é, Jubi, faz, por mim.
Pediu com um sorriso doce. O olhar de Roberto a convenceu. James ainda não entendia o que eles estavam planejando.
Roberto: Cara, você precisa ver isso.
Disse, empolgado, virando-se brevemente para James.
James se virou no banco. Agora, sua atenção estava totalmente voltada para a garota no banco de trás. Jubileu ficou de pé no carro, desequilibrando-se por um instante até que Danielle segurou sua cintura. A música se aproximava do refrão.
Uma contagem regressiva começou. James olhava confuso, até que... no um, Jubileu ergueu os braços — e deles saíram fogos de artifício. Rojões coloridos dispararam para o céu, explodindo em luzes vivas sobre a estrada noturna.
James ficou boquiaberto.
James: Impossível... como ela...
Murmurou, maravilhado.
Jubileu abaixou os braços, triunfante. Todos no banco de trás bateram palmas e assoviaram. Dani vibrava. Sam gargalhava.
Roberto, dirigindo, observou o reflexo do rosto pasmo de James no retrovisor.
Roberto: Impressionante, não é?
James: Sim, muito. Ela deve economizar um dinheirão nas festas de Ano Novo.
Sam: Sem falar nas festas de 4 de julho.
Completou, ainda rindo.
Jubileu: Hahaha. Que engraçado, muito original. Como se eu nunca tivesse ouvido essa piada antes.
Disse com ironia, revirando os olhos e se recostando de novo.
Sam e Dani riram. Roberto deu uma risada baixa. James levou a mão à boca, tentando não rir.
Sam: Foi mal, Jubi, não resisti à piada.
James: Seu poder é realmente incrível, Jubileu. Um verdadeiro estouro.
Disse sinceramente.
Jubileu pareceu surpresa com o elogio direto. Desviou o olhar, envergonhada.
Jubileu: Hm... valeu, eu acho.
O carro acelerava. O vento batia em seus rostos. A estrada à frente era livre, e pela primeira vez em muito tempo, James sentiu que estava exatamente onde queria estar.
O motor do BMW vermelho cessou com um ronco suave quando Roberto estacionou em uma vaga reservada logo à frente da boate. As luzes da fachada da “Fascínio” piscavam com intensidade hipnótica, refletindo sobre o capô reluzente do carro. Do lado de fora, uma longa fila de pessoas se estendia pela calçada, formada por jovens ansiosos para entrar no lugar mais badalado da cidade.
James olhou pela janela, surpreso com o tamanho da fila e a energia elétrica no ar. Roberto se virou no banco da frente, com um brilho entusiasmado nos olhos.
Roberto: Vocês estão prontos? Porque este lugar é da hora!
James arregalou os olhos, observando a imensidão de pessoas aglomeradas. Era realmente impressionante.
Sam soltou um suspiro enquanto abria a porta do carro e saía.
Sam: Merda, tem gente pra caralho aqui.
Danielle também observava a cena, soltando um som de frustração.
Roberto: Galera, vocês esqueceram com quem estão? Eu sou Roberto da Costa, herdeiro da fortuna da Costa. Eu não espero na fila, e meus amigos também não.
Com aquele ar de superioridade natural, Roberto atravessou a calçada como se fosse o próprio dono do clube, ignorando completamente a fila quilométrica. Cabeças se viraram para observá-lo passar.
James riu, meio desacreditado, seguindo com o grupo.
Sam: Esse é o meu cara.
Na porta, Roberto trocou algumas palavras com o segurança. Logo depois, voltou com cinco pulseiras VIP em mãos. Ele distribuiu uma a cada um, mas quando chegou em James, fez questão de colocá-la pessoalmente em seu pulso.
Roberto: Espero que você se divirta pra caralho hoje.
James sentiu o toque firme e o olhar penetrante de Roberto. Um calor subiu por seu rosto.
James: Valeu, cara.
Eles já estavam prestes a entrar quando James parou abruptamente. Jubileu, logo atrás, trombou com ele, surpresa e irritada.
Jubileu: Mas que Merd...
Sam notou o clima estranho e se virou.
Jubileu: Por que você parou, cara? Entra logo.
James: Caralho, meus olhos, eu esqueci completamente...
Disse, abaixando o olhar e tentando esconder os olhos escarlates com a franja.
James: E se alguém descobrir que eu sou um mutante?
Roberto: Relaxa, mano. As pessoas vão estar tão chapadas lá dentro que nem vão notar seus lindos olhos. Além do mais, tem muitas luzes piscando e efeitos de luz. Garanto que você irá passar despercebido.
Roberto colocou uma mão reconfortante no ombro de James.
Danielle se aproximou, tentando tranquilizá-lo.
Danielle: Não se preocupe, provavelmente vai ter bastante gente com lentes especiais lá dentro. Se alguém notar, você pode falar que só está usando um acessório.
Convencido, James respirou fundo e seguiu com eles para dentro do clube.
Assim que cruzaram as portas, James ficou boquiaberto. Luzes dançavam em padrões frenéticos, colorindo as paredes e os rostos das pessoas. Jovens de todas as idades se moviam ao som alto da música, rindo, bebendo, dançando. O lugar exalava luxo e vibração.
Roberto apontou em direção ao bar.
Roberto: Vamos lá, galera, eu pago a primeira rodada. E todas as outras, é claro.
Ele seguiu na frente, sendo acompanhado rapidamente pelos outros. Danielle puxava Jubileu pela mão, Sam seguia animado, e James vinha logo atrás, ainda impressionado.
Ao chegar ao bar, apesar do movimento intenso, conseguiram uma mesa. Um garçom trouxe uma bandeja cheia de shots.
Roberto: Shots de tequila pra todo mundo, galera. Podem cair pra dentro, bebam sem moderação.
Roberto tomou o primeiro shot de uma vez, fazendo careta. Sam o imitou, rindo. Danielle hesitou, e James, olhando para o copinho, engoliu seco.
Sentado ao lado de Jubileu — que pareceu incomodada com sua proximidade — James respirou fundo, fechou os olhos e tomou o shot. O líquido queimava em sua garganta. Ele colocou o copo na mesa, com o rosto levemente avermelhado.
Sam: Tá se sentindo bem, mano? Aquela foi uma dose alta da porra.
James: Acho que estou... estou.
Levantou uma mão à cabeça, sentindo o calor do álcool subir.
Danielle: James tá bem relaxado.
Disse com uma risadinha, observando os dois.
Roberto, que havia acabado de virar mais um shot, se levantou de repente, empolgado.
Roberto: Puta merda, eu adoro essa música.
Sem pensar duas vezes, deu um gole na bebida e partiu para a pista de dança, arrastando os outros — exceto James, que permaneceu onde estava.
Notando sua ausência, Roberto voltou.
Roberto: Ei! O que tá fazendo aqui sozinho, cara? Levante essa bunda e venha pra pista de dança com a gente!
James: É... que... eu não danço.
Disse envergonhado, evitando o contato visual.
Roberto sentou ao seu lado, curioso, levantando uma sobrancelha.
Roberto: Cara, sério? Você é um rapaz bonito, alto, bom shape e não dança?
James agradeceu mentalmente pela iluminação escura que escondia suas bochechas coradas.
James: É... hum, é que eu não sei dançar.
Roberto: Bom, é justamente por isso que a gente tá aqui, cara. Ninguém sabe dançar quando começa. Até porque é uma balada, você não precisa ser um dançarino profissional — é só mexer o corpo e se divertir.
Roberto segurou o pulso de James e o puxou para levantar. James, relutante, foi erguido.
Roberto: Vê? Não é nada complicado, só segue a batida da música e pronto!
Colocando as mãos nos ombros de James, Roberto batia os pés no ritmo da música, tentando conduzir o amigo. Os dois se moviam em harmonia, Roberto tentando fazê-lo relaxar.
Roberto: Só relaxa e deixa seu corpo solto!
James respirou fundo, tentando conter os pensamentos que surgiam pela proximidade entre eles.
James: Acho que estou pronto pra tentar sozinho agora, obrigado.
Disse com um sorriso tímido, afastando-se.
Roberto: Tá bom, vou deixar você tentar sozinho. Estou aqui se precisar de mim.
Disse com um sorriso vibrante, voltando a dançar ao seu próprio ritmo.
Danielle, de longe, assistia à cena com um sorriso divertido. James, agora sozinho, começou a dançar de forma tímida. Seus movimentos eram contidos, mas pouco a pouco foi se soltando. A batida da música o envolvia, e ele passou a se mover com mais segurança.
Logo estava completamente entregue ao momento.
Sam e Roberto o observavam com surpresa. James parecia outra pessoa.
Roberto: Olha só quem estava escondendo o jogo. Você dança bem, novato. Tem ritmo. Só te faltava um pouco de confiança.
Disse próximo ao ouvido de James, tentando se fazer ouvir no meio da música.
James deu um leve suspiro, mas continuava dançando. Pela primeira vez, ele não sentia medo. Estava rindo. Estava se divertindo. Estava sendo... livre.
As luzes estroboscópicas cortavam o ar denso da boate, lançando tons de violeta e azul sobre os corpos em movimento. James dançava, agora visivelmente mais solto, quando se virou de frente para Roberto. Os dois ficaram cara a cara no centro da pista, cercados por uma multidão pulsante.
James: Eu acho que foi graças à sua ajuda, discípulo de Patrick Swayze.
Ele falou com um sorriso de canto, o tom brincalhão em sua voz.
Roberto deu uma gargalhada leve, e com naturalidade colocou uma das mãos na cintura de James, aproximando seus corpos de forma quase imperceptível.
Roberto: Oh... Você é um garoto bastante desbocado, já percebi.
Disse entre risos, movendo-se no ritmo da música, conduzindo James em seus passos despreocupados.
Roberto: É bom ver você mais à vontade. Você parecia bastante nervoso. Se você estiver interessado, eu tenho uma coisinha que vai te ajudar a ficar ainda mais relaxado, tá afim?
Ele abriu a palma da mão discretamente, revelando um pequeno comprimido branco. A música alta parecia mais distante agora para James, que encarava o objeto com os olhos semicerrados. A combinação do álcool e da euforia da dança fazia seu corpo latejar com uma energia estranha.
James mordeu o lábio inferior, seu olhar dividido entre curiosidade e hesitação.
James: O que é isso?
Roberto inclinou a cabeça de leve, os olhos escuros com um brilho malicioso.
Roberto: Não é nada muito forte. É uma coisa pra ajudar a relaxar, tipo, te deixar mais solto, sabe?
Ele não disse a palavra “ecstasy”, mas James captou a intenção. Seus olhos ainda estavam fixos no comprimido.
James: E o que a gente tem que fazer depois de tomar?
Perguntou, sentindo-se mais curioso do que deveria, mesmo sabendo que talvez devesse recuar.
Roberto se aproximou, seu rosto ficando perigosamente perto do de James. O som da pista parecia se tornar um sussurro ao redor deles.
Roberto: Bem, depois de tomar, você vai se sentir ainda mais animado do que agora. Tudo vai parecer perfeito. Você vai poder dançar a noite toda, a música vai soar mágica... Será tudo muito divertido.
James respirou fundo. Os olhos de Roberto estavam perto demais. Seu coração batia descompassado, e a tensão no ar parecia prestes a se romper.
James: Você vai tomar também?
Perguntou, sem desviar o olhar.
Roberto: Vou sim. Pra aproveitar a noite.
Confirmou com um leve aceno de cabeça.
James estendeu a mão para pegar o comprimido, mas Roberto afastou a própria mão com um sorriso provocador. Com um gesto travesso, ele levou o comprimido até a ponta da língua e estendeu-a levemente para fora da boca, sugerindo o que James teria que fazer.
Por um momento, James congelou. Seu rosto esquentou e ele engoliu em seco. Hesitante, ele se inclinou, e seus lábios se aproximaram da boca de Roberto. A respiração quente dele tocava sua pele. Seus olhos se cruzaram por um instante.
James esticou a língua devagar, tocando a de Roberto, pegando o comprimido. Seus lábios se encostaram por alguns segundos — quentes, úmidos, intensos. Ele se afastou rapidamente, engolindo o comprimido com um leve tremor nos dedos.
Roberto: Boa, garoto.
Disse com um riso satisfeito, observando James engolir a pílula.
O momento ainda não havia terminado. Roberto estava perto, os rostos ainda a poucos centímetros. Num movimento rápido, ele segurou a nuca de James com firmeza e o puxou bruscamente.
Os dedos de Roberto se cravaram com força, quase agressivos, enquanto ele o puxava para outro beijo — este, mais voraz, urgente.
Sua língua invadiu a boca de James sem cerimônia, explorando-a. James sentia o corpo ser puxado contra o de Roberto, sentia o calor da pele, a batida dos corações, o peso daquele toque inesperado.
Roberto aprofundava o beijo, e James, atordoado, apenas se deixou levar. Seus sentidos estavam embaralhados — ou pela droga, ou pela atração, ou pela intensidade do momento. O mundo girava como em câmera lenta. As luzes dançavam em flashes quase cegantes.
Roberto, em meio ao beijo, passou as mãos pela cintura de James, colando seus corpos. Depois, uma das mãos deslizou até as nádegas do garoto. James soltou um suspiro involuntário pelo nariz, um som abafado entre o contato dos lábios.
E então, com a mesma velocidade com que começou, Roberto se afastou. Os olhos ainda fixos nos de James, ele sorriu com malícia, virou-se e sumiu na pista de dança sem olhar para trás.
James ficou ali, parado, enquanto o efeito do comprimido começava a se espalhar por seu corpo.
O mundo ao redor parecia vibrar. As luzes estavam mais intensas, a música mais alta, os sons mais vivos. O coração dele batia acelerado, e uma onda de calor o atravessava da cabeça aos pés.
Ele fechou os olhos por alguns segundos, tentando se manter firme. Quando abriu novamente, o salão parecia uma pintura distorcida. As pessoas dançavam, se beijavam, giravam ao seu redor como uma sequência de imagens estroboscópicas.
James voltou a dançar, ainda tonto. Movia as mãos lentamente no ar, fascinado com os rastros visuais que deixavam. Acidentalmente, esbarrou num garoto ruivo.
James: D-descu... desculpa.
Murmurou com a voz pastosa. O garoto o encarou por um momento, depois desviou o olhar com um ar de desdém.
Cambaleando, James se juntou a Danielle e Sam no centro da pista. Ambos dançavam com energia, completamente entregues à batida.
Danielle: Você está bem?
Ela notou algo no olhar de James — a excitação, os olhos mais vívidos.
James: Estou perfeito.
Respondeu com um sorriso largo, girando no ritmo da música.
Danielle: Isso é ótimo!
Ela respondeu entre risos, feliz por vê-lo se soltando.
Sam observava com um olhar travesso, balançando os ombros no ritmo da música.
Sam: O ecstasy já está fazendo efeito.
James virou o rosto para ele com curiosidade infantil.
James: Ecstasy? Então foi isso que eu tomei. Legal.
Disse sem preocupação, o sorriso solto no rosto.
Danielle gargalhou, encantada com o comportamento solto do amigo.
Danielle: E você já tá tendo uma boa trip?
James dançava, rindo, ainda imerso na sensação surreal que o tomava por dentro. Mas tudo mudou em segundos.
Ele avistou, a poucos metros dali, Roberto e Jubileu se beijando. Os dois estavam grudados um no outro, os corpos colados, os gestos íntimos.
O sorriso de James desapareceu como uma vela apagada pelo vento. Ele ficou parado, assistindo à cena como se estivesse do lado de fora do próprio corpo. A dor em seu peito foi sutil, mas certeira. Um nó apertou sua garganta.
Roberto passava as mãos pelo corpo de Jubileu, completamente entregue ao momento. James piscou algumas vezes, tentando afastar a imagem.
Ele recuou em silêncio, afastando-se de Danielle e Sam sem dizer nada. A euforia se desfazia, dando lugar a uma onda de ansiedade e desconforto.
Caminhou entre os corpos dançantes, desorientado, até encontrar uma saída lateral. Empurrou a porta com dificuldade e saiu para um beco escuro nos fundos da boate.
O ar fresco da noite bateu em seu rosto. Ele se curvou, apoiando as mãos nos joelhos. O estômago revirou.
Vomitou com força.
Ficou ali, os ombros tremendo, o gosto amargo na garganta. O mundo ainda girava ao seu redor, mas agora com um peso sufocante. O som abafado da música ainda ecoava por trás da parede.
James encostou-se na parede fria e fechou os olhos.
A festa havia acabado — pelo menos para ele.
James continuava encostado na parede úmida do beco, o gosto amargo do vômito ainda presente em sua boca. Seus olhos ardiam e a cabeça girava em espirais causadas pelo efeito do ecstasy. Respirava fundo, tentando manter alguma lucidez, quando ergueu o rosto para o céu. As estrelas estavam nítidas naquela noite — era bonito. Por um breve segundo, permitiu-se esquecer onde estava.
Foi quando, de forma abrupta, algo o atingiu com força. Seu corpo foi lançado contra o chão com brutalidade. Não sabia de onde veio o golpe. Cambaleante, tentou se erguer, apoiando-se com dificuldade na parede para não desabar de novo.
Quando sua visão voltou ao foco, viu quatro silhuetas diante de si. À frente, o garoto ruivo da pista de dança. Atrás dele, três outros jovens, todos com olhares duros e cheios de desdém.
— E agora, mutuna nojento, o que é que você vai fazer? — rosnou o ruivo, encarando James com puro ódio.
James piscou várias vezes, a mente ainda embotada. Tentava compreender o que estava acontecendo, mesmo com a tontura tomando conta.
James: Eu não quis te… bater.
Suas palavras saíram lentas, enroladas. O ruivo soltou uma risada debochada, acompanhado pelos outros, que zombavam do estado deplorável do garoto.
— Claro que não, — respondeu com sarcasmo, aproximando-se mais. — Você não pensou nada, né, mutantezinho sujo?
James tentava manter o equilíbrio. O cheiro de álcool na respiração do ruivo era sufocante, e o tom hostil deixava claro que aquilo não era apenas uma briga de bar.
James: E-eu não… sou… mutan... mutante.
A insegurança vazava pela voz trêmula de James.
— Claro que é. Eu reconheço gente da sua raça nojenta de longe. Ainda mais você, com esses olhos vermelhos do demônio. Você é uma aberração ambulante e eu odeio ter que viver no mesmo mundo com aberrações feito vocês, mutuna.
James sentiu o medo apertar o peito como um ferro quente. Tentou recuar, mas o ruivo avançava. Seus olhos estavam esbugalhados, agressivos.
— Além de mutuna, ele ainda é viadinho. Eu vi quando ele beijou aquele mulato arrogante. Que nojo, — disse outro dos garotos, cuspindo aos pés de James.
James sentiu a repulsa se transformando em vergonha, e a vergonha virando raiva — mas o medo era mais forte. Queria fugir.
James: Vocês estão engana... enganados, não sou mut... mutan... mutante. Os meus olhos... isso não é real... estou usando lentes.
— Ele acha que somos idiotas, — zombou um dos comparsas, magricela, com uma jaqueta velha e gasta.
— Você tá de lente, né? Então não vai se importar se eu tirar pra você, — disse o ruivo, avançando. Com brutalidade, agarrou o rosto de James, empurrando-o contra a parede e forçando seus olhos a se abrirem com os dedos.
James se encolheu, cerrando os olhos por reflexo. A dor era aguda, e as risadas dos garotos ecoavam ao seu redor, cortando a noite.
De repente, tudo parou.
Com um estalo surdo, o corpo do ruivo foi lançado ao chão. Um soco seco o derrubou como um saco de pedras. James caiu de joelhos, respirando com dificuldade.
À sua frente, Roberto se colocava entre ele e os agressores. Os punhos cerrados, sujos de sangue, vibravam de fúria.
Roberto: Fiquem longe dele, seus filhos da puta!
Sam, Danielle e Jubileu surgiram rapidamente, correndo para ajudar James. Sam e Danielle se ajoelharam ao seu lado, ajudando-o a se manter ereto. Jubileu se aproximava com os olhos faiscando entre preocupação e desprezo.
James sentia uma dor latejante na cabeça, os olhos queimando.
— Seu filho da puta! Você vai morrer pelo que fez, seu mutuna mulato nojento! — gritou o ruivo, cuspindo sangue e segurando os dentes que Roberto havia derrubado.
Roberto o encarou com desprezo.
Roberto: Me chama de mutuna de novo.
— Mutante de merda! — o ruivo cuspiu, desafiador.
Roberto deu um passo à frente, os músculos se tensionando para outro golpe, mas foi contido.
Jubileu: Deixa pra lá. — Ela pousou a mão em seu peito. — Não perca sua paz por causa de um babaca assim.
— Vem me chamar de babaca aqui no meu ouvido, vem, gatinha. Até que essa japinha é gostosinha, hein? Será que também é mutuna? Seria um desperdício...
— Todos eles são. São todos mutantes, — disse outro, em alerta.
Jubileu revirou os olhos com desprezo.
Jubileu: Quanta originalidade...
— Você acha que eu não te pego aqui e agora? Seus poderes mutantes vão te ajudar quando eu te fizer gritar...?
Foi a gota.
Roberto avançou em fúria, os punhos cerrados, suas mãos começando a assumir a textura mutante, mas não chegou longe.
O garoto ruivo sacou uma arma da cintura e apontou diretamente para ele.
Todos congelaram.
Sam puxou Danielle e Jubileu para trás, protegendo-as com o corpo. Roberto travou, paralisado, o peito arfando.
— Mutante de merda, não é tão bravo agora, né? Vai ficar aí congelado até tomar um tiro, seu escroto?
A tensão explodiu no beco. Sam estava atento a cada movimento, os olhos vidrados no cano da arma.
— Uni, duni, tê… qual vai ser o primeiro mutante a morrer? O caipira loiro com síndrome de Superman? — apontou para Sam. — A gostosinha linguaruda e sua amiga cara-pálida? — virou para as garotas. — Ou a aberração com olhos de demônio... — apontou para James, que tentava se manter em pé, escorado na parede.
— Quem eu vou escolher...? Acho que vou começar pelo seu namorado, — disse para Roberto, mirando em James.
O mundo pareceu parar. James arregalou os olhos. Um pânico silencioso subiu como gelo por sua espinha. O dedo do garoto apertou o gatilho.
Mas Sam já havia se lançado.
As pernas desapareceram, substituídas por uma energia azulada e veloz. Ele se lançou contra os agressores como um raio, derrubando-os com brutalidade para o outro lado do beco.
Roberto soltou um suspiro de alívio, correndo até James.
Roberto: Você está bem?
James não respondeu. Apenas o encarou com os olhos escarlates, em choque, tentando absorver tudo o que acabara de acontecer.
Jubileu se aproximou, os olhos atentos, ainda em guarda.
Jubileu: Temos que sair daqui agora. Sam só ganhou tempo derrubando eles, mas eles não vão desistir assim tão fácil. Vamos para o carro, agora, Roberto.
Roberto assentiu. Passou o braço ao redor de James, apoiando-o contra seu corpo. Sam já voltava, ileso, os olhos atentos.
Sem dizer uma palavra, o grupo correu em direção à BMW de Roberto do outro lado da rua.
James mancava, mas conseguia acompanhar, amparado. Sua mente ainda girava, mas o instinto de sobrevivência falava mais alto.
Os garotos agredidos começavam a se levantar, furiosos e ensanguentados.
Sam permaneceu próximo, protegendo a retaguarda enquanto todos corriam.
Assim que todos entraram no carro, Roberto deu a partida com força. Os pneus cantaram, e a BMW disparou pela estrada.
A noite ainda estava estrelada, mas agora ela passava como um borrão além do para-brisa.
O carro acelerava em meio à madrugada silenciosa. O vento entrava pelas janelas laterais da BMW de Roberto, cortando o silêncio tenso que pairava no veículo. Sam olhou para trás, os olhos atentos. Jubileu também mantinha a vigilância pelo retrovisor, os dedos tensos sobre o painel.
Danielle: Meu deus, Sam, você foi baleado.
A voz dela saiu em choque, enquanto seus dedos tocavam o buraco de bala na camiseta de Sam. Ela procurava o ferimento, mas não encontrava nada.
Sam: Relaxa, Dani. Eu fico invulnerável quando estou na forma de Míssil. Só minhas roupas que não, infelizmente. Porra, essa camisa era novinha.
Ele suspirou, passando o dedo pelo tecido rasgado com um olhar de lamento sincero.
Jubileu: Merda, são eles. Roberto, aquele Honda Civic preto atrás de nós. São eles. Estão nos perseguindo.
Roberto lançou um olhar rápido pelo espelho retrovisor e viu o carro se aproximando velozmente. Um brilho metálico refletia os faróis da rua sobre a lataria do Civic.
Roberto: Quantos filhos da puta esses caras são.
Ele apertou os dentes e pisou no acelerador, fazendo o motor da BMW rugir.
O Honda Civic se mantinha próximo, acompanhando cada movimento da BMW com agressividade.
Jubileu: Acelera, Roberto. Eles vão nos alcançar.
Roberto: Calma, Jubi. A potência do motor do meu carro nem se compara àquela lata velha que aqueles idiotas estão pilotando.
Ele firmou as mãos no volante, os olhos focados na estrada, confiante, quase desafiador.
Mas a perseguição se intensificava. A tensão crescia dentro do carro com o ritmo dos batimentos cardíacos de cada um. Sam mantinha o olhar no retrovisor, Danielle observava a estrada com os ombros tensos.
Foi então que um estalo seco cortou o ar — PANG! — o retrovisor do lado de Jubileu explodiu em mil pedaços, espalhando vidro pelo painel.
Roberto: Porra, Jubileu, cuidado com as suas bombinhas.
Jubileu: Não fui eu, idiota. Eles estão atirando na gente!
Roberto: Merda! Mas que porra… Vocês aí atrás, se abaixem! A capota está emperrada!
Ele afundou o pé no acelerador. Sam e Danielle se jogaram no banco traseiro, abaixando-se junto com James, que ainda se recuperava dos efeitos da droga.
Tiros ricocheteavam na lataria da BMW. O barulho dos disparos misturava-se ao ronco do motor e aos gritos abafados no carro.
Jubileu: Eu posso tirá-los da estrada, só preciso de uma distração.
Danielle: Deixa comigo.
Danielle se virou no assento, encarando o Civic pela janela traseira. Suas tranças se agitavam com o vento que cortava o carro, e seus olhos se fixaram no rosto do garoto ruivo ao volante.
De repente, ele começou a gritar, os olhos arregalados de puro desespero.
— Aranhas, porrra! Milhares delas subindo pelo meu corpo!
Dentro do Civic, a histeria se espalhava. Os outros garotos se debatiam, tentando se livrar das ilusões. A perseguição perdeu ritmo, o carro quase saiu da pista enquanto diminuíam drasticamente a velocidade.
Danielle: Sua vez, Jubi.
Jubileu virou-se no banco, olhos fixos nos pneus dianteiros do Civic. Um estalo energético brilhou em suas mãos — uma rajada de luz colorida disparou, atingindo um dos pneus.
BOOM!
O pneu explodiu e o Honda derrapou violentamente, quase capotando. O caos se instalou entre os perseguidores.
Dentro da BMW, o alívio veio como uma explosão de alegria. Palmas, gritos e assobios preencheram o carro.
Sam: Caralho! Garotas, aquilo foi demais.
Roberto: Caramba, Jubi! Eu te daria outro beijo na boca agora, se eu não tivesse que prestar atenção na estrada.
Jubileu: Não se preocupe, querido. Depois você me dá.
Ela lançou um olhar provocante para Roberto. Ele sorriu, visivelmente divertido, mantendo os olhos na estrada.
Sam revirou os olhos com um sorrisinho. Danielle riu, relaxando finalmente.
No banco de trás, James observava tudo em silêncio. A lucidez voltava pouco a pouco, e seus olhos fixaram-se na nuca de Roberto. A lembrança do toque — a forma como suas mãos haviam se apoiado ali mais cedo — voltou de forma sutil e dolorosa.
Quando viu o sorriso entre Roberto e Jubileu, algo apertou em seu peito. Desviou o olhar, sufocando o incômodo.
A BMW atravessou o portão automático do Instituto, finalmente deixando a estrada para trás. A garagem silenciosa os recebeu como um refúgio.
Roberto: Caralho. Quero ver como eu vou explicar isso.
Ele desceu do carro, apontando para o retrovisor destruído e as marcas de bala espalhadas na lataria impecável da BMW.
Os outros também saíram, esticando as pernas após a fuga alucinante.
Sam: Eu não queria estar na sua pele quando você tiver que explicar isso tudo para o Ciclope.
Roberto: Eu só espero que o professor X não descubra, se não eu vou ficar um mês inteiro sem o meu bebê aqui.
Ele acariciou o capô da BMW como se fosse um animal ferido.
Danielle: É... só não pensar alto perto dele.
Sam: Acho que isso é a menor das suas preocupações, meu irmão. Vai haver muito mais coisas pra se preocupar quando Scott descobrir o que aconteceu.
Jubileu: Ele não precisa descobrir. Ninguém aqui vai contar, ou vai?
Ela lançou um olhar firme na direção de James, que se apoiava no carro de Roberto.
James ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar fixo nos olhos dela.
James: Eu não vou falar nada.
Roberto: Ei, cara, você está bem? Aqueles caras machucaram muito você, não foi? Me desculpa por não ter chegado a tempo de...
Ele parou, os punhos cerrando novamente, o maxilar travado. A imagem de James sendo prensado contra a parede ainda queimava em sua memória.
James: Tudo bem. Não foi culpa sua.
Ele se afastou do carro, tentando ficar ereto. Roberto o observava, os dedos ainda trêmulos pela raiva.
James: Você apareceu no momento que tinha que chegar. Não sei o que eles fariam comigo se você não aparecesse. Falando nisso, belo soco.
Ele deu um meio sorriso.
Roberto: Obrigado. Estou surpreso que acertei aquele maldito ruivo justamente no meio da boca.
James: É. Você tirou alguns dentes dele, não tirou?
Eles riram brevemente enquanto seguiam para dentro do Instituto, entrando nos corredores calmos e vazios.
Roberto: Eu espero que aquele filho da mãe pareça uma velha sem dente depois daquele murro.
James sorriu, mas em seguida se despediu dos outros e seguiu em silêncio até seu quarto.
O corredor estava escuro. James abriu a porta com cuidado e entrou. Spike dormia profundamente na cama ao lado. James retirou os sapatos e se arrastou até o banheiro, onde acendeu a luz e se encarou no espelho.
Seu reflexo era uma mistura de hematomas, olhos vermelhos e lembranças dolorosas.
Ele tocou o pescoço — marcas roxas manchavam sua pele. Fechou os olhos, tentando se livrar da imagem do ruivo o agredindo. Mas, em vez disso, outras imagens vieram: os garotos que matou naquela noite, anos atrás, quando seus poderes se manifestaram pela primeira vez.
O mesmo medo. O mesmo ódio. As mesmas palavras.
Se não estivesse chapado... teria matado de novo?
Ele encarou os próprios olhos — vermelhos, escarlates, brilhando sob a luz do banheiro. A voz do ruivo ainda ecoava:
"Aberração... olhos do demônio..."
James entrou no chuveiro. A água quente desceu sobre seu corpo, levando o sangue, o suor... e as lágrimas. Ele se sentou no chão, abraçou os joelhos e chorou. Chorou tudo.
Do lado de fora, Spike estava acordado. Parado na porta, escutava os soluços. Queria entrar, queria abraçá-lo. Mas estava magoado demais.
Seu orgulho venceu, e ele voltou para a cama, em silêncio.
O banheiro permanecia cheio de vapor e dor abafada. James continuava lá dentro, afundado em si mesmo, tentando encontrar forças para continuar.
E a água quente, teimosa, insistia em não lavar tudo.