A voz ainda ecoava como uma maldição.
"Aberração... olhos do demônio..."
Essas palavras não deixaram James em paz. Tinham martelado na sua mente durante toda a noite, se agarrado aos seus pensamentos como garras invisíveis. Ainda estavam ali pela manhã, insistentes, sufocantes, e continuavam agora — pesadas e dolorosas — enquanto ele encarava o espelho pela segunda vez naquele dia.
O banheiro estava silencioso, exceto pelo som baixo do encanamento e da respiração tensa dele. James observava seus olhos escarlates, vermelhos como sangue fresco, como fúria contida. Respirou fundo.
Ele não queria aqueles olhos. Não queria parecer uma aberração. Então fez o que podia.
Abriu o estojo antigo, guardado há tempos. Tirou cuidadosamente as lentes de contato e as colocou. Sentiu-as se ajustar em seus olhos. Piscou algumas vezes. O reflexo que encarava agora o devolvia um par de olhos castanhos escuros — normais. Invisíveis.
Satisfeito, abaixou a franja e penteou-a para frente, como costumava fazer antigamente, cobrindo parte dos olhos. Era uma velha armadura. Respirou fundo uma última vez e saiu do banheiro.
Do lado de fora, Spike já estava acordado, mexendo em suas coisas sem dirigir uma palavra sequer a James. Estava claro: ainda estava magoado. James sabia por quê. Sabia que tinha ferido o orgulho — e o coração — de Spike.
Ele tentou ignorar o desconforto e caminhou em direção à mochila. Passou por Spike, que virou o rosto com desdém, como se James fosse um incômodo. James revirou os olhos e pegou sua mochila de cima da cama. Já ia sair quando, por acaso, cruzaram olhares.
Foi um segundo. Um único segundo. Mas foi o suficiente para Spike perceber.
Spike: James, espera. Que porra é essa nos seus olhos?
Spike se colocou na frente da porta antes que James conseguisse sair.
James congelou. Ele sabia que tinha sido visto. Um instante apenas, mas não precisava de mais do que isso.
Spike o encarava com os olhos arregalados, exigindo uma explicação.
Spike: Anda, cara, responde. Por que você colocou esse troço em seus olhos?
James: Eu não te devo nenhuma explicação.
A resposta foi fria, e James tentou sair. Mas Spike foi mais rápido, estendendo o braço no batente da porta, bloqueando a saída.
Agora estavam frente a frente. A raiva e a frustração de Spike saltavam de seu olhar. Ele cruzou os braços, sem arredar o pé.
Spike: Não me deve explicações, é? — retrucou, indignado. — Então eu vou te perguntar de novo. Por que você colocou aquilo nos olhos?
James desviou o olhar, evitando o contato. O silêncio entre eles era denso. Por fim, James respirou fundo.
James: Porque eu me sinto melhor assim.
Ainda sem olhar para Spike.
A expressão de Spike se retorceu em espanto e revolta.
Spike: Sem essa. Para de mentir. Aconteceu alguma coisa com você ontem. Eu sei que você fugiu do colégio com aquele idiota do Roberto e seus amigos populares. Depois eu ouvi você chorando no banheiro, e agora você se esconde atrás dessas lentes ridículas. O que aconteceu com você, James?
James permaneceu em silêncio enquanto Spike falava. Ele sentia cada palavra como uma pancada no peito.
James: Não é nada... eu já disse. Me sinto melhor assim.
Spike: Você se sente melhor assim? Escondendo quem você é atrás desse pedaço de plástico? Eu não acredito em você. Não posso acreditar. Seria decepcionante demais se você estiver falando a verdade.
James cerrou os dentes. A frustração borbulhava.
James: Quer saber, Spike? Pra quem não liga a mínima pra mim, você tá bastante interessado na minha vida. O dia estava indo bem demais quando você estava me ignorando. Eu já te disse a verdade. Se você não quer acreditar, aí o problema não é meu. Agora, por favor, dá pra sair da minha frente que eu já estou atrasado pra aula?
Spike continuava ali, firme, quase tremendo de raiva.
Spike: Eu estou interessado na sua vida porque eu me importo com você, seu idiota! — ele quase gritou. — E estou irritado porque você fica escondendo coisas de mim e fingindo que tá tudo bem, mesmo que obviamente não esteja.
James cruzou os braços e o encarou de volta, o rosto impassível.
James: Eu não estou escondendo nada de você.Só não quero falar sobre isso agora.
Spike: Você sempre faz isso, não é? — sua voz se tornava mais amarga. — Você sempre tenta lidar com tudo sozinho e nunca me deixa ajudá-lo.
James riu. Um riso seco e debochado.
James: Você me ajudar? Nós não somos amigos, Spike. Entenda. Você não precisa me ajudar. Não precisa se importar comigo. Somos apenas colegas de quarto. Tá? A gente se pegou algumas vezes, mas foi só isso. Não significou nada.
Ele se arrependeu no mesmo segundo em que as palavras deixaram sua boca.
A expressão de Spike mudou. Como se tivesse levado um soco no estômago.
Spike: Isso? Foi isso pra você? Só “pegação”? Não significou nada?
A dor na voz dele cortava como faca.
James tentou falar, mas engasgou nas próprias palavras.
James: Bom... eu... eu... achei... eu achei que você se sentia assim também. Que nós dois estávamos de acordo com isso. Spike, você não gosta de mim.
Spike: Vai se foder, James.
Foi tudo o que ele disse antes de sair, batendo a porta do banheiro com força.
James ficou sozinho no quarto, envolto no silêncio e no peso do que tinha acabado de dizer.
Mais tarde, no refeitório, James atravessava com a bandeja na mão. Estava prestes a se sentar sozinho quando viu Roberto acenar para ele. Respirou fundo e seguiu até a mesa, sentando-se ao lado de Danielle, que parecia prestes a desmaiar.
James: Você está bem, Danielle?
Ela apenas gemeu, debruçada sobre a mesa.
Danielle: Eu estou morrendo.
Roberto: Ela só está de ressaca. Puro drama.
Ele disse com desdém, mastigando um salgadinho com indiferença.
James olhou Danielle com preocupação, enquanto ponderava as palavras de Roberto.
James: Por que foi beber tanto?
Roberto: Me diz você? Por que você não está morrendo? Pelo que eu sei, você não é acostumado a beber. E ontem você virou mais shots que a Danielle — sem falar da droga que você tomou. Cara, por que você não está passando mal? Você parece bem até demais.
James ficou surpreso com a pergunta.
James: Eu... não sei. Isso é estranho. Eu estou bem. Muito bem. Como se eu não tivesse bebido nada.
Roberto franziu a testa, desconfiado.
Roberto: Isso é estranho, cara. Eu vi você beber e usar. Não tem como você estar desse jeito. Parece um milagre.
Jubileu: Isso não é nenhum milagre, idiota. É só mutação.
Ela apareceu de repente, jogando-se na cadeira com um ar de quem já sabia a resposta há tempos.
Jubileu: O álcool e as drogas vão pra corrente sanguínea. O poder mutante de James é controlar e manipular o sangue. Some um mais um e você terá sua resposta, gatinho.
Ela apertou as bochechas de Roberto. Ele se assustou, mas logo revirou os olhos.
Roberto: Eu não sou um gatinho. Sou um tigre.
James observou, surpreso com a explicação de Jubileu.
James: Você deve ter razão.
Ele abriu um pacote de batatinhas, pensativo.
Sam: Ontem à noite foi legal... tirando a parte que aqueles caras bateram em você, James, e atiraram na gente enquanto nos perseguiam em alta velocidade. Quer saber? Eu vou parar de falar agora.
James arqueou uma sobrancelha, encarando Sam com ironia.
James: É... tirando isso, foi divertido.
Danielle: Isso foi horrível.
Ela murmurou, ainda pálida.
Roberto: Ninguém te obrigou a beber tanto.
O sinal tocou e o grupo começou a se levantar. Quando James se afastava, Roberto o puxou levemente pela manga.
Roberto: Ei, cara. Espera um segundo.
Ele o olhou confuso.
Roberto: O que houve com seus olhos? Estão castanhos?
James parou, surpreso pela pergunta.
James: Ah, sim. Eu estou usando lentes de contato.
Sem mais explicações, pegou a bandeja e foi levar até o balcão. Roberto o seguiu.
Roberto: Por quê?
James: Porque eu me sinto melhor assim. Agora eu tenho que ir.
Apressou o passo, tentando se distanciar.
Roberto o observou com estranheza, mas não insistiu — ainda.
Roberto: Ei, espera um minuto, cara!
James: Depois, Roberto. Eu já estou muito atrasado pra aula da Professora Ororo.
Ele desapareceu entre os corredores, entrando rapidamente na sala e se sentando ao lado de Danielle, deixando Roberto com suas perguntas sem resposta.
Roberto entrou na sala alguns minutos depois, ofegante e visivelmente frustrado. Mais uma vez, havia perdido James de vista. Seus olhos percorreram as fileiras de carteiras até encontrá-lo sentado, ao lado de Danielle.
Sem querer chamar atenção, Roberto se acomodou algumas fileiras atrás, tentando se manter próximo o suficiente para observar, mas distante o bastante para não ser notado. Seus olhos pousaram em Danielle, que parecia confusa, enquanto James mantinha o olhar fixo no próprio estojo, como se ele fosse o centro de todo seu universo.
O ambiente mudou instantaneamente quando Ororo Munroe entrou na sala. A presença dela era magnética. Ela caminhava com elegância e força, os longos cabelos brancos contrastando com sua postura impecável. A sala silenciou quase imediatamente. Todos os olhos se voltaram para ela, como se um campo gravitacional emanasse de sua figura.
Ororo caminhou até a frente da sala. Seus olhos percorreram calmamente os rostos atentos, antes de falar com voz firme e cheia de autoridade.
Ororo: Hoje, falaremos sobre controle.
Ela fez uma pausa, deixando que a palavra reverberasse entre os alunos.
Ororo: Em especial, controle de nossos poderes.
Então, suavizando um pouco o tom, ela sorriu de leve.
Ororo: Mas antes, eu tenho um aviso para dar a todos vocês. Como vocês sabem, já é tradição que, na primeira semana de aulas, nós do Instituto Xavier damos a nossa famosa festa de volta às aulas. Porém, tivemos um contratempo esse ano, por conta do confronto entre os X-Men e Magneto. Mas as coisas já voltaram ao normal, e nossa festa vai acontecer amanhã às oito da noite no salão de festas. Para aqueles que querem ajudar na decoração ou colaborar com qualquer outra coisa, me procurem depois da aula.
A notícia dividiu a sala entre sorrisos e indiferença. Alguns alunos cochichavam animados, enquanto outros apenas anotavam distraidamente.
Danielle se inclinou animada em direção a James.
Danielle: Ei, você vai vir na festa amanhã, né?
James: Hum, eu acho que sim.
A resposta veio baixa e sem entusiasmo. O olhar de Danielle pousou nele com um misto de surpresa e compaixão.
Danielle: Você não parece muito animado quando o assunto é festas, não é mesmo?
Disse com um risinho leve.
James: Acho que eu já tive minha cota de festas para o ano todo, você não acha?
Ele disse sem sorrir, relembrando a noite anterior.
Danielle franziu a testa, captando o peso daquelas palavras.
Danielle: Ah, sim. Eu tenho que concordar com você.
Eu acho que acordei umas seis vezes durante a noite, precisando ir ao banheiro.
Ororo voltou a chamar a atenção da turma com um gesto suave da mão, retomando a aula.
Ororo: Vamos começar com algo simples. Quem aqui consegue alterar a temperatura do ar?
Uma aluna loira no fundo da sala ergueu a mão timidamente. Mechas azuis tingiam seus cabelos.
Zarah: Eu consigo, professora.
Ororo: Ótimo, venha até a frente da classe.
Zarah se levantou, com passos firmes. Ela se postou ao lado de Ororo, fechou os olhos e esticou a mão na direção de uma garrafa em cima da mesa. Em segundos, o ar ficou mais frio. Pequenos cristais se formaram no vidro.
Ororo a observava atentamente.
Ororo: Boa escolha de alvo.
Agora, tente aumentar a temperatura do ar.
Mas antes que Zarah pudesse continuar, Scott Summers surgiu na porta, acenando brevemente.
Ororo arqueou uma sobrancelha, surpresa.
Ororo: Scott. — disse, virando-se para ele. — Eu não estava esperando por você aqui.
Scott: Desculpe a intromissão, Tempestade, mas tenho um anúncio muito importante a fazer.
Ororo fez sinal para que ele prosseguisse.
Ororo: Um anúncio? Sobre o quê?
Scott: Bom, todos aqui conhecem a Sala de Perigo? Imagino que sim. Para os novatos, ela nada mais é do que uma sala de treinamento completamente automatizada e inteligente, feita para treinar os X-Men.
O Professor Xavier e eu discutimos muito sobre isso, e agora tomamos uma decisão: a partir de hoje, os alunos também poderão treinar na Sala de Perigo — sempre com supervisão de um professor, claro. Vocês serão divididos em turmas. Esse treinamento é essencial para o avanço e controle das habilidades mutantes, e precisa ser levado a sério.
Ele olhou para o celular.
Scott: Estou com a lista da primeira turma. Eu mesmo vou supervisionar o treino de hoje à tarde. Quando eu falar seus nomes, quero que se levantem.
Scott: Spike e Sam Guthrie... Hmm, vejo que não estão nesta turma. Tudo bem, depois peço ao Bobby para avisá-los. Continuando...
A turma ficou em silêncio. Alguns trocavam olhares tensos. James, quieto, apertava a borda da carteira.
Scott: Roberto da Costa, Danielle Moonstar, Jubileu Lee e, por fim, James Jones.
Vários rostos se voltaram para os nomeados. James sentiu o olhar de Roberto em sua direção e desviou os olhos.
Scott: Então é isso. Vejo vocês na Sala de Perigo hoje à tarde, exatamente às três e meia. Atrasos não serão tolerados. Isso é tudo. Pode continuar a aula agora, Tempestade.
Scott se retirou, deixando a sala mais inquieta do que antes.
Ororo: Bem, como eu estava dizendo...
Ela retomou a aula.
Três e meia.
Os seis estudantes estavam reunidos em frente à imponente Sala de Perigo. As portas metálicas lembravam as de um cofre de banco — altas, espessas, intimidadoras. James engoliu em seco.
Ele olhou ao redor. Todos pareciam tão nervosos quanto ele. A tensão estava estampada nos rostos.
James: Essa porta é bem intimidante.
Roberto: É mesmo. — disse, mexendo os braços. — Parece que estamos prestes a invadir um banco ou algo assim.
Spike: Você só saberia qual é a sensação de invadir um banco se nascesse de novo e pobre, seu playboyzinho mimado filhinho de papai.
A provocação cortou o ar como uma lâmina.
James virou o rosto imediatamente, olhos semicerrados.
James: Ei, qual é seu problema, cara?
Não precisa ser um babaca só porque o Roberto veio de uma família rica.
Spike: Mas é claro que você iria defender o namoradinho.
As palavras caíram como uma bomba.
O coração de James quase parou. Suas mãos começaram a suar. Ninguém sabia dos sentimentos que ele escondia por Roberto — nem mesmo o próprio Roberto.
A provocação de Spike não era apenas cruel. Era vingança.
James engoliu em seco, os olhos disparando de Spike para Roberto. Teria ele entendido?
Roberto o encarava, confuso.
Roberto: Ei, o que foi?
Ele colocou a mão no ombro de James, preocupado.
Antes que James pudesse reagir, Scott surgiu de dentro da sala.
Scott: Bem-vindos, pessoal.
Disse animado, tentando aliviar o clima tenso que pairava no ar.
Scott: Espero que estejam todos prontos para começar.
Com um estrondo mecânico, as portas começaram a se abrir lentamente.
A visão era inesperada — o espaço lá dentro era vasto, metálico e completamente vazio. Um silêncio desconfortável se instalou no grupo.
Expectativa virou frustração num piscar de olhos. Mas o verdadeiro teste ainda estava por vir.
Scott cruzou os braços e lançou um olhar enigmático ao grupo.
Scott: Sejam pacientes, vocês não sabem do que esta sala é capaz de fazer. Venham comigo.
O tom desafiador na voz dele fez os alunos trocarem olhares, alguns hesitantes, outros curiosos. Ele se virou e começou a caminhar pela vasta extensão da sala, os passos ecoando levemente pelo chão metálico. Um a um, os alunos o seguiram, pisando com cautela naquela imensidão aparentemente vazia.
James olhou em volta. As paredes lisas e o teto alto causavam uma sensação de vazio inquietante. Nenhum sinal óbvio de ameaça.
James: Essa sala é enorme.
Comentou, com um leve suspiro de frustração ao notar a ausência de qualquer coisa que parecesse um desafio.
Scott: Bem-vindos à Sala de Perigo. Todos os seus sistemas são controlados a partir desta cabine. Os computadores vão monitorar e avaliar o progresso de vocês.
Apontou para uma cabine envidraçada elevada logo à frente. Eles subiram uma pequena escada metálica até entrarem nela.
Painéis brilhantes e dezenas de monitores preenchiam a cabine. Luzes pulsavam e gráficos coloridos preenchiam as telas. Os olhos dos alunos se arregalaram diante da tecnologia avançada.
Roberto se aproximou de um monitor, passando os dedos pela superfície polida como se estivesse tocando algo sagrado.
Roberto: Como isso funciona exatamente?
Scott: Olhem aqui.
Disse, gesticulando para que todos se reunissem em volta de uma tela.
Scott: Basicamente, o sistema funciona com base em diferentes cenários pré-programados. Cada um apresenta um desafio diferente, que vai te testar tanto fisicamente como mentalmente.
James observava tudo atentamente, absorvendo cada detalhe com olhar técnico.
Scott: Para a segurança de todos, essa sala foi construída dez metros abaixo da mansão. Seu acesso é restrito, e seu design assegura que, não importa o que aconteça aqui, os que estiverem lá em cima não serão perturbados. Sob nenhuma circunstância a sala deve ser usada sem a supervisão de um adulto.
Os alunos escutavam com concentração, divididos entre fascínio e apreensão.
James: Essa sala parece mesmo ser muito segura.
Roberto: É mesmo. É irônico que ela se chame sala de perigo, não é? Até agora eu não vi perigo nenhum.
Comentou em voz baixa, próximo o bastante de James para que só ele ouvisse.
A proximidade repentina deixou James desconcertado. Ele desviou o olhar para Roberto, então respondeu num sussurro, um leve tom de irritação na voz.
James: O próprio conceito da sala é perigoso. Nós literalmente fomos designados aqui para treinamento com o risco de sermos machucados.
Roberto deu uma risadinha despreocupada.
Roberto: Relaxe, Jones. É só um treino de rotina. Não tem razão nenhuma para estar tão estressado.
Scott se aproximou de um painel e apertou um botão com precisão.
Scott: Vou ativar agora o modo básico de ginástica. A Srta. Hunter estará encarregada de supervisionar os exercícios de vocês.
Ao toque de um único botão, a sala metálica abaixo começou a se transformar. Equipamentos modernos de ginástica surgiram do chão e das paredes — esteiras, cordas, pesos, barras paralelas. Um verdadeiro ginásio de elite.
Os alunos se entreolharam, impressionados.
Scott: Vocês devem achar que estão em boa forma, mas logo vão perceber que para usar suas habilidades da melhor forma, devem ter corpos do nível de um atleta.
James assentiu lentamente, sentindo o peso da responsabilidade. Jubileu, por outro lado, suspirou alto, visivelmente decepcionada.
Jubileu: Achei que esta seria só uma grande palestra.
E agora temos que nos exercitar?
Spike: E você achou que a gente ia fazer o quê aqui? Tá achando que isso é colônia de férias? Vê se acorda, rojãozinho.
Jubileu lançou um olhar cortante para Spike.
Jubileu: Ei, — bufou — quem te deu o direito de me chamar de rojãozinho?
Scott: Parem com isso vocês dois.
Ambos se calaram, embora o clima entre eles continuasse carregado.
James observou em silêncio. Algo lhe dizia que aquela rivalidade estava apenas começando.
Sam: Parece que... vamos ter que dar duro mesmo.
Disse, os olhos fixos nos aparelhos.
Roberto: Não é tão impressionante assim. O ginásio na casa do meu pai no Rio é tão bem equipado quanto.
James suspirou levemente diante do comentário.
Scott: Mesmo, Roberto? Diga-me... o ginásio do seu pai pode fazer... isto?
Com um sorriso leve no canto dos lábios, Scott apertou outro botão. A sala mudou novamente. Todo o ambiente de ginásio sumiu, sendo substituído por uma densa floresta tropical — árvores gigantes, cipós, sons de animais selvagens.
Os alunos recuaram instintivamente.
Roberto: Por todos os santos.
James encarava a cena, boquiaberto.
James: Isso é incrível. — murmurou — Como é que é possível?...
Sam: O que é aquilo? Um monstro?
Ele apontava para uma criatura imensa, semelhante a um dinossauro, que surgia por entre as árvores e corria desgovernada na direção deles.
James ficou paralisado diante da visão. O monstro avançava violentamente em direção ao vidro da cabine.
Danielle: Para trás, o monstro está atacando!
Antes que qualquer um pudesse reagir, Scott apertou outro botão. Tudo desapareceu — floresta, criatura, som. A sala voltou ao estado neutro, como se nada tivesse acontecido.
Roberto: Quer dizer então que isto é apenas uma projeção holográfica? Como os efeitos especiais de um filme?
Scott: Em parte, Roberto. Eu acionei um subprograma ambiental capaz de reproduzir qualquer lugar exótico imaginável. Ele interage com o programa de treinamento principal, criando ameaças e problemas apropriados para quem estiver na sala, dando a essa pessoa experiência no uso de seus poderes sob as atuais condições de combate.
Alguns elementos são sim projeções holográficas tridimensionais, mas outros são totalmente reais. Vocês não podem tomar nada como garantido.
Fez uma pausa dramática.
Scott: Bom, chega de explicações e teorias. Vamos testar tudo isso na prática. Vocês estão preparados para começar o treinamento?
Scott bateu palmas.
Os alunos trocaram olhares entre si. A apreensão era visível, mas também havia empolgação.
Jubileu: Eu acho que sim. — disse com determinação.
Scott: Muito bem. Suas próprias sequências já estão prontas para iniciar.
Scott ajustou alguns botões no painel.
Scott: Seu desafio será simples. Vocês só terão que atravessar a sala e chegar ao outro lado, usando seus poderes para superar os obstáculos que aparecerem em seu caminho. Vamos formar duplas: Sam e Roberto, Spike e Jubileu, e James e Danielle.
James lançou um olhar a Danielle, tentando demonstrar confiança apesar da ansiedade que sentia.
James: Está pronta? — murmurou.
Danielle: Estou pronta. — respondeu, tentando parecer firme, mesmo com o nervosismo evidente em seus olhos.
Spike: Ah, cara, qual é? Com tanta gente aqui, você vai me colocar justo com a rojãozinho?
Jubileu apenas mostrou a língua em resposta.
Spike: Você tem o quê? Cinco anos?
Enquanto isso, Roberto e Sam vestiam uniformes especiais. Com passos decididos, entraram na Sala de Perigo.
Scott: Mantenham a calma. Usem sua cabeça e seus poderes. Vocês têm tudo o necessário para passar nesse teste.
A porta se fechou atrás deles com um clique firme. Luzes vermelhas começaram a piscar.
Sam: Atravessar a sala, é? Parece fácil. Fácil até demais.Bom, aqui vou eu. Te vejo do outro lado, Beto.
Em um instante, Sam se lançou no ar como um míssil humano. Sua energia termoquímica disparou e ele voou em alta velocidade.
Roberto assistiu com admiração.
Roberto: Uau... — murmurou. — Bom, é a minha vez.
Avançou, atento. De repente, um robô gigante surgiu do chão, agarrando-o pela cintura com mãos metálicas monstruosas.
Roberto: Esse som?
As garras o levantaram com força crescente. Ele tentou resistir, ativando sua forma mutante — seu corpo envolvido pela energia solar — e desferiu um soco que amassou o metal.
Roberto: Um robô? Tô desapontado. Eu esperava algo original. Um soco deve ser o suficiente pra derrubar essa velharia.
Mas o robô apertou ainda mais. A energia começou a se esgotar. O brilho de seu corpo desaparecia. Exausto, ele voltou à forma normal, ainda preso.
Roberto: Isso é... irritante.
Tentou reunir as últimas reservas de energia solar. Nada. Estava esgotado.
Acima, na cabine, Spike ria escandalosamente, batendo no vidro.
Humilhado, Roberto o encarou com raiva.
Enquanto isso, Sam, distraído com a cena, colidiu contra uma parede invisível. Ele caiu no chão, grogue.
Sam: Cara, ainda bem que eu não posso me machucar quando tô usando o meu poder...
Sam retomou o foco, voou novamente, mas foi sugado por um tubo que o expeliu de volta ao ponto de partida.
Deitado no chão, Sam suspirou.
Scott: Roberto e Sam, fim do exercício. Vocês falharam. Por favor, deixem a Sala de Perigo imediatamente.
Ambos saíram, frustrados. Spike os esperava com deboche.
Spike: Mandou bem, da Costa. Você foi realmente impressionante. Você sabia que o seu objetivo era atravessar a sala, não era ser capturado pelo robô, não sabia?
Roberto: Não preciso de suas provocações. — respondeu seco. — Além disso, duvido que você se saia muito melhor que eu.
Spike: Claro que eu me sairia melhor que você.
Eu não deixaria aquele robô me agarrar daquele jeito e ainda sairia de lá sem um arranhão.
Scott: Spike, Jubileu. Se preparem. Vocês são os próximos.
Spike: Vou passar por essa sala como uma faca cortando manteiga. Essa vai ser moleza...
Com confiança excessiva, tirou a camiseta, exibindo os músculos e tatuagens. Antes de sair, mostrou o bíceps para Roberto com um sorriso arrogante.
Roberto: — murmurou — Ele está se pavoneando como se já tivesse conquistado a vitória...
Spike e Jubileu já estavam posicionados. O próximo desafio começaria em breve.
Spike caminhou em direção à linha de partida, alongando os músculos com movimentos precisos e provocativos. Ele lançou um olhar direto e arrogante para Jubileu, que se posicionava ao seu lado.
— Spike: Ae 4 de julho, vê se fica na sua e não me atrapalha.
Jubileu, com as mãos na cintura e um brilho desafiador nos olhos, retribuiu o olhar com a mesma intensidade, sem se intimidar.
Ela arqueou uma sobrancelha e respondeu com firmeza:
— Jubileu: Não se preocupe, Spike. Vou fazer o meu melhor, mesmo que você esteja atrapalhando.
Spike soltou uma risada, confiante, e caiu ao chão para executar algumas flexões teatrais.
— Spike: Isso aí, menina. Mostre o que tem... Mas cuidado para não tropeçar em mim.
Scott observava os dois e, após verificar os monitores, deu o sinal para iniciar.
Os portões se abriram com um zumbido mecânico, revelando a sala em constante transformação. Imediatamente, Spike disparou com agilidade impressionante, saltando e desviando dos obstáculos que surgiam à sua frente, sem jamais olhar para trás.
Jubileu, embora mais contida no início, avançava com determinação. A cada passo, ela lançava esferas de luz cintilante — seus famosos “fogos de artifício” — destruindo plataformas de concreto e abrindo caminho entre os obstáculos com explosões coloridas.
Scott, de braços cruzados na cabine, avaliava o desempenho e decidiu aumentar o nível do teste. Seus dedos tocaram um comando, e a sala de perigo respondeu, projetando armadilhas ainda mais complexas diante dos dois mutantes.
Jubileu manteve o ritmo, orgulhosa, até que uma imensa estrutura metálica surgiu inesperadamente diante dela. Sem hesitar, lançou seus fogos na direção do objeto — mas o metal refletiu o ataque com força redobrada. A explosão se voltou contra ela, atingindo-a em cheio no peito. A garota foi lançada para trás, colidindo violentamente com o chão. Por um momento, permaneceu caída, tentando recuperar o ar.
Enquanto isso, Spike enfrentava um novo desafio. Ciborgues emergiram do chão como sombras metálicas, rodeando-o num círculo apertado. Sem tempo para pensar, ele tentou se defender, mas os inimigos eram muitos. Braços mecânicos golpeavam de todos os lados.
Sem perder tempo, Spike passou as mãos pelas tatuagens nas coxas, e uma metralhadora surgiu em suas mãos como mágica. Com um sorriso maníaco, ele começou a disparar.
Os ciborgues cambaleavam com os impactos, tentando se aproximar, mas Spike os mantinha afastados. Então, algo inesperado aconteceu: as asas negras tatuadas em suas costas ganharam vida. Elas se expandiram com força, levantando-o do chão.
Com a metralhadora ainda ativa, Spike alçou voo e começou a disparar do alto. Os ciborgues, pegos de surpresa, não tiveram chance contra o ataque aéreo.
Na cabine, todos assistiam boquiabertos. Scott estava visivelmente impressionado. Danielle e Sam não conseguiam esconder o espanto, enquanto até Roberto, relutante, admitia para si mesmo o impacto do que via.
James, por sua vez, sentiu algo diferente. Seu coração acelerou, e ele notou suas mãos tremendo levemente. O olhar de admiração que lançava para Spike era difícil de disfarçar.
Pairando no ar com suas asas negras, Spike derrotou os últimos ciborgues com precisão cirúrgica.
Mas o orgulho veio com um preço. Arrogante, ele voava em direção à saída, comemorando antes da hora — quando suas asas explodiram em tinta negra e desapareceram, voltando ao estado de tatuagem.
Sem sustentação, Spike despencou.
A queda foi dura.
Todos na cabine riram com o tombo espetacular. Até James, ainda tremendo, não conseguiu segurar a risada.
Scott recompôs a seriedade e ativou o microfone:
— Scott: Bom trabalho, Spike. Parece que você conseguiu passar pela primeira fase.
No chão, Spike ergueu a cabeça e murmurou, ainda atordoado:
— Spike: Disse que era moleza.
— Scott: No entanto o objetivo desse exercício era atravessar a sala. Infelizmente você não conseguiu chegar ao outro lado a tempo, e o seu tempo acabou. Jubileu e Spike, vocês falharam. Por favor, retornem à cabine.
— Spike: O que? Mas que porra, isso não é justo.
Spike chutou um dos aparelhos com raiva antes de caminhar em direção à saída. Jubileu, ao seu lado, soltou um longo suspiro de frustração, sentindo-se igualmente derrotada.
— Scott: As regras são claras, Spike. Você não chegou até o final da sala dentro do tempo estabelecido. Você e Jubileu falharam. O exercício está terminado.
Sem olhar para ninguém, Spike entrou na cabine, se jogando em uma cadeira com cara fechada. Jubileu o seguiu, visivelmente desapontada.
Scott respirou fundo antes de chamar os próximos.
— Scott: Bom, vamos seguir com a última dupla. Dani e James, é a vez de vocês.
Todos os olhos se voltaram para Danielle e James. Danielle estava focada e determinada; James, nervoso e tenso.
— Roberto: Boa sorte, cara.
Roberto deu um tapinha no ombro de James enquanto ele passava. James assentiu, sem palavras. Ao chegar à porta da sala, lançou um olhar para Danielle. Ela respondeu com um sorriso confiante.
— Danielle: Pronto?
— James: Estou pronto.
— Scott: Muito bem, vocês podem entrar. Boa sorte aos dois.
A porta se fechou atrás deles. O som mecânico de trancas ecoou. Isolados, começaram o desafio.
Lasers foram disparados na direção deles no momento que pisaram na arena
James se lançou para frente, tentando esquivar-se, mas era atingido repetidamente. Danielle, por outro lado, saltava e se movia com precisão.
Na cabine, Roberto observava com apreensão.
— Spike: São as lentes... Aquelas malditas lentes de contato. Elas escondem a cor vermelha dos olhos de James, mas também dificultam sua visão e também seus poderes. Ele está se auto-sabotando.
Scott arregalou os olhos, voltando-se para os monitores.
— Scott: Isso é grave. Se ele não conseguir controlar isso, seus poderes vão ser praticamente inúteis em uma missão.
Spike, com os olhos cravados no painel, tomou uma atitude impensada. Pegou o microfone da mão de Scott e gritou:
— Spike: James, tire as lentes! Elas estão atrapalhando o seu desempenho. Ninguém aqui liga para a cor dos seus olhos, seu idiota! Pare de se humilhar e faça alguma coisa, caralho! Você é o mais poderoso entre nós. Só pare de se esconder, porra!
Todos na cabine se entreolharam, chocados com a explosão emocional de Spike.
James, dentro da sala, parou. As palavras ecoaram dentro dele. Ele hesitou... então levou as mãos aos olhos. Com firmeza, arrancou as lentes.
Seus olhos, agora vermelhos escarlates, brilharam como rubis vivos.
A diferença foi imediata. James moveu-se com destreza e precisão. Pulava, deslizava, desviava como um dançarino em combate.
Danielle o observava, surpresa. Roberto estava hipnotizado. E Scott, finalmente, esboçou um sorriso de aprovação.
James encontrou o recipiente com o líquido vermelho. Seus olhos vibraram. Ele sentiu o sangue. Aproximou-se e, com um gesto, controlou o fluido, fazendo-o flutuar.
Mas então, as paredes começaram a se fechar ao seu redor. James agiu rápido. Usou o sangue como se fossem fios de aço. Criou uma teia de energia sólida, que paralisou os blocos de concreto. As paredes congelaram no lugar.
Todos na cabine estavam boquiabertos.
— Scott: Isso foi... incrível. E surpreendente.
Enquanto James recuperava o fôlego, Danielle enfrentava obstáculos que se tornavam cada vez mais impossíveis.
Diferente dos outros, ela não podia usar seus poderes mentais contra objetos inanimados.
Um raio atingiu seu ombro. A dor a fez perder o controle. E, sem querer, ela liberou sua habilidade psíquica em direção a James.
A mente de James foi invadida. E então...
O horror começou.
Como num cinema 3D, a memória mais dolorosa de James foi projetada em tempo real para todos na cabine. Cada detalhe, cada grito, cada perda — escancarados para seus colegas.
Roberto, Danielle, Scott... todos viram.
E James... estava prestes a reviver o pior momento de sua vida.
Na escuridão úmida e abafada de um beco, a memória proibida de James tomava forma. Ele estava ali, jogado no chão, com o corpo curvado sobre si mesmo, tentando se proteger dos golpes que choviam sem misericórdia. Cinco garotos o espancavam, chutando e pisoteando sem piedade. Risos cruéis ecoavam no beco, entre insultos e cuspes que se misturavam ao sangue escorrendo do rosto de James. A dor era insuportável. A humilhação, ainda pior. O mundo escurecia aos poucos enquanto ele perdia a consciência, rendido.
E então a cena mudou.
Até o próprio James — ainda no presente — viu o que nunca ousou lembrar. Aquela parte de sua mente que ele havia enterrado profundamente. A parte que ele não queria lembrar. Agora, ela era projetada diante de todos, como um pesadelo real. E ele não tinha como impedir.
Na sala de comando, as imagens se formaram em hologramas nítidos, como um filme hiper-realista. Os rostos dos colegas refletiam horror absoluto. Porque agora, todos estavam vendo.
James estava diferente. Ainda naquele beco. Mas agora erguido. Os olhos brilhando em vermelho. E o sangue... O sangue jorrava dos corpos dos cinco agressores, afogando-os lentamente. Seus membros se retorciam, explodiam em fragmentos de carne, as veias se rompendo como serpentes enlouquecidas. Membros foram amputados sem que James sequer se movesse. Era uma chacina silenciosa e fria. Mutilações executadas com um simples olhar.
Na cabine de observação, o horror paralisou a todos.
O silêncio que se seguiu foi ainda mais ensurdecedor do que os gritos da lembrança. Scott encarava a projeção, olhos arregalados, a boca entreaberta.
— Scott: Minha nossa... O que foi aquilo?
Sua voz saiu trêmula, quase inaudível. Ele conhecia aquela história. Sabia o que James tinha feito. Mas ver aquilo com os próprios olhos era outra coisa. Ninguém estava preparado.
Danielle caiu de joelhos com um grito desesperado, as mãos sobre a cabeça, tremendo como uma folha ao vento. A projeção havia sumido, mas o que ela havia despertado permanecia... dentro dela, e dentro de todos.
E dentro de James.
Na sala de perigo, James estava de pé, encolhido, apertando as têmporas com força brutal, como se tentasse esmagar a própria mente para impedir as imagens.
— James: PARA! POR FAVOR... PARA... PARA... EU NÃO AGUENTO... PARA...
O desespero em sua voz cortava o ar como uma lâmina.
Na cabine, Spike se virou para Scott, os olhos arregalados.
— Spike: Porra, Scott, faz alguma coisa! Tira ele de lá! Não vê que ele está sofrendo?!
— Roberto: Precisamos ajudá-lo!
Scott, abalado, ainda tentou manter a calma. Olhou para Danielle, ajoelhada, e então tomou uma decisão.
— Scott: Danielle, você precisa se recompor. James precisa de nossa ajuda. Eu sei que não foi intencional, mas nós não podemos deixar isso continuar.
Ele se inclinou para o microfone, tentando alcançar James através do caos mental.
— Scott: James, me escute! Preciso que se acalme. Você está em segurança agora. Concentre-se em minha voz.
Mas não havia mais segurança.
— James: Chega... — ele sussurrou.
Então, ele berrou:
— James: JÁ CHEGA!
O recipiente atrás dele explodiu violentamente, sangue se espalhando por toda a sala de perigo. Mas ao invés de escorrer pelo chão, o líquido flutuava no ar ao redor de James, rodopiando como serpentes prontas para atacar.
Os olhos de James brilhavam intensamente. Rubis incandescentes. O sangue escorria de seus olhos como lágrimas carmesim. O medo cedeu lugar à fúria pura e avassaladora.
O sangue começou a se moldar. Facas. Lâminas afiadas. Uma dúzia. Depois duas. Depois cem. Todas pairando no ar, prontas para matar.
Algumas apontavam para Danielle, ainda ajoelhada. Outras miravam diretamente a cabine.
Scott congelou. O garoto não tocava o chão — flutuava centímetros acima dele. Aquilo... aquilo lembrava Jean. Aquilo lembrava a Fênix.
O sangue de Scott gelou.
Ele viu o perigo se formando. E soube: não podia permitir que aquilo se repetisse. Nem que tivesse que enfrentá-lo com as próprias mãos.
— Scott: Precisamos tirar Danielle dali. Agora!
Roberto e Spike se moveram sem hesitar. Eles correram até a sala de perigo, se aproximando de Danielle. Com cuidado, a ergueram, ainda trêmula, e a conduziram para fora do campo de visão de James.
Scott, desesperado, falou novamente ao microfone.
— Scott: James, ouça-me. Eu sei que você está com raiva, mas você tem que se acalmar. Ninguém aqui quer lhe machucar.
Mas as adagas continuavam. Cem, duzentas. Prontas para avançar.
Scott engoliu seco e ativou sua viseira. Ele se preparou para disparar.
— Scott: Ele precisa ser detido.
Mas no instante seguinte, algo entrou em seu campo de visão.
Spike.
Ele estava ali, no meio da sala de perigo. Entre James e a cabine. Imóvel. Sem medo.
Scott gritou:
— Scott: Spike, o que você está fazendo?! Se afaste daí imediatamente!! Isso é uma ordem!
— Sam: Esse cara é completamente maluco... — murmurou, em choque.
Spike ignorou tudo. As adagas de sangue tremularam. Uma delas disparou, parando a milímetros do olho esquerdo de Spike.
— Scott: Spike! Caia fora daí agora! Você vai se machucar!
Mas Spike ficou. Firme. E então falou:
— Spike: Você não vai me machucar.
A tensão na sala era sufocante. A adaga ainda vibrava, ameaçadora.
— Spike: James, eu não tenho medo de você. Nunca tive e nunca terei.
James, em estado de fúria, hesitou. Seus olhos escarlates fixaram-se em Spike.
— Spike: Eu não me importo com o que você pense sobre si mesmo. Ou sobre o que você fez. Eu só me importo com o que eu vejo. E eu vejo a verdade.
As palavras ressoaram como um trovão na mente de James.
— Spike: A verdade é que você não é um monstro, James. Também é verdade que se você for adiante com isso — se atacar seus amigos, pessoas que verdadeiramente se importam com você — se fizer isso, James... então sim. Você se tornará o monstro que sempre pensou ser.
O silêncio caiu como uma cortina de chumbo.
James não se moveu. Mas algo dentro dele quebrou.
As lâminas começaram a se desfazer no ar. Uma a uma, derreteram como cera escarlate.
James caiu de joelhos. Exausto. Encharcado de sangue e lágrimas. A fúria havia cedido.
Spike se moveu rapidamente, segurando-o antes que desabasse por completo.
Os dois se encararam, frente a frente. Pela primeira vez, James via Spike de verdade. A chuva de sangue ainda caía sobre eles, cobrindo-os da cabeça aos pés.
Na cabine, Scott soltou um suspiro de alívio. O pior havia passado.
Mas o estrago estava feito.
James se afastou de Spike. Olhou para cima. Para a cabine.
E viu os olhares de todos.
O de Roberto... doeu mais.
Havia choque, medo, decepção.
James sentiu o estômago revirar. O peso da culpa e da vergonha caiu como um manto sobre seus ombros.
— James: Eu tenho que sair daqui.
Antes que alguém dissesse algo, ele virou-se e correu em direção à saída.
Na cabine, ninguém conseguiu impedir. Eles apenas observaram... em silêncio.
Tentando entender se o garoto que acabaram de ver... era o mesmo James que conheciam.
Roberto, especialmente, parecia preso em uma confusão de pensamentos e emoções, enquanto observava seu amigo sair rapidamente pela porta.
Enquanto James abria a porta e começava a correr, a voz de Spike o alcançou.
Spike: James... espere!
O garoto parou no lugar, olhando por cima do ombro para trás. Havia um conflito em seu rosto, entre vontade de se afastar e desejo de ficar.
James fechou os olhos por um momento, parecendo dividido, mas então se virou novamente e continuou a correr, desaparecendo em direção à saída da sala de perigo. Os outros ainda o observavam da cabine, confusão e preocupação evidentes em seus rostos.
Spike ficou parado, observando enquanto James se afastava. Havia uma expressão de frustração e tristeza em seu rosto, enquanto o garoto desaparecia de vista.