PORTÕES DO INSTITUTO XAVIER – DIA
James para diante dos imponentes portões dourados do Instituto Xavier para Jovens Superdotados. Seus olhos vermelho-rubi encaram a estrutura com intensidade. O coração dispara em seu peito, e suas mãos estão suadas. Ele engole seco.
JAMES (pensando)
“É isso.”
“Este é o começo de um novo capítulo da minha vida.”
Ele inspira profundamente. Sem ter um lar para onde voltar, sem outra direção possível, dá o primeiro passo. Cruza os portões, adentrando o extenso jardim cheio de flores e árvores vibrantes.
James,caminhando pelo jardim. Ao fundo, a mansão do Instituto se ergue imponente. Ele passa por outros estudantes:
– Scott Summers (Ciclope), usando seus inconfundíveis óculos escuros;
– Jean Grey, com seus cabelos ruivos ao vento;
– Ororo Munroe (Tempestade), serena e elegante;
– Logan (Wolverine), com seu típico semblante rabugento.
James para na varanda da mansão, larga sua mala no chão com um leve suspiro. Ele observa Scott se aproximando, vindo na sua direção.
SCOTT
“Ei, você aí. Nunca te vi antes.”
(sorrindo, notando o olhar de James fixo em seus óculos escuros)
“Tem… algo errado?”
JAMES
“Hum, não, quer dizer, não é nada, desculpe.”
(desviando o olhar)
“Meu nome é James e eu sou, hum, novo aqui, acabei de chegar.”
Scott franze levemente a testa, surpreso, mas rapidamente se recompõe.
SCOTT
“James. Você é um aluno novo, hein?”
JAMES
“Sim, parece que sou.”
(visivelmente nervoso, evitando contato visual; sua franja cobre quase completamente os olhos)
Scott nota o desconforto de James, especialmente o cuidado em esconder os olhos.
SCOTT
(gentilmente)
“Eu conheço esse olhar. Você está nervoso, com medo do que eu possa pensar ao olhar para seus olhos, não é?”
James encara os próprios pés.
JAMES
“É que eles são... diferentes.”
Scott dá um passo à frente, pousando uma mão no ombro de James, em gesto acolhedor.
SCOTT
“Está tudo bem, garoto. Acredite em mim, eu sou a última pessoa no mundo a julgar alguém com base na aparência.”
James inspira fundo. Levanta a cabeça, afastando a franja, revelando por completo seus olhos escarlates. Scott o observa com atenção, surpreso.
SCOTT
“Uau, espera. Deixa eu dar uma olhada melhor nisso.”
Ele se inclina lentamente, curioso. James recua ligeiramente, confuso com a reação.
JAMES
“O que foi?”
Scott o encara com fascínio.
SCOTT
“Seus olhos. Eles estão completamente vermelhos. Nunca vi nada assim antes.”
JAMES
“É, eu sei, sou uma aberração de circo.”
(desviando o olhar novamente)
Scott percebe o peso da frase e se apressa em corrigir o tom.
SCOTT
“Não, não, não. Não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer que eles são lindos. Não são esquisitos ou feios de jeito nenhum.”
James o encara, surpreso. Nunca ouvira alguém elogiar seus olhos antes.
JAMES
“Hum, tá, obrigado eu acho.”
(ainda sem jeito)
Scott sorri, mantendo o olhar nos olhos de James como se examinasse uma obra rara.
SCOTT
“Como você conseguiu olhos assim? Você nasceu com eles?”
JAMES
“Sim, nunca entendi o porquê deles serem assim. Devem ter alguma relação com os meus poderes. Fui obrigado a usar lentes de contato minha vida toda. Era doloroso e muito desconfortável.”
SCOTT
“Deve ter sido terrível, ter que esconder algo tão lindo. Você não precisa mais, sabia? Aqui, não há necessidade de usar lentes ou algo assim.”
James cora, ainda desconcertado com tanto acolhimento. Ele olha para os óculos escuros de Scott, curioso.
JAMES
“Então por que você esconde os seus?”
Scott desvia o olhar brevemente antes de encarar James novamente. Seu sorriso vacila um instante.
SCOTT
“Você vê isso?”
Ele tira os óculos escuros, fecha os olhos por um momento e, ao abri-los, um raio de energia óptica explode uma árvore próxima em pedacinhos.
SCOTT
“É por isso.”
James dá um salto, arregalando os olhos para os restos da árvore. Depois, encara Scott com admiração pura.
JAMES
“Isso, isso foi, isso foi incrível!”
Scott recoloca os óculos, agora sorrindo de verdade.
SCOTT
“É, tem uma razão pra eu usar isso o tempo todo. Tipo, como as outras pessoas reagiriam se eu acidentalmente explodisse algo por engano?”
JAMES
“Eu entendo completamente o que você quer dizer. Seus óculos são muito maneiros.”
Scott ri da empolgação de James, achando a reação divertida e contagiante.
SCOTT
“Obrigado. Presumo que você goste da aparência deles?”
JAMES
“Sim. É tão legal quanto o que Arnold Schwarzenegger usa em O Exterminador do Futuro 2.
Hasta la vista, baby.”
(imitando a fala do filme)
Scott arregala os olhos, surpreso e incrédulo.
SCOTT
“Você viu O Exterminador do Futuro 2? Desculpa, quantos anos você tem?”
JAMES
“16.”
(vendo a expressão confusa de Scott)
“É que eu sou um grande apreciador dos clássicos. Sou um cinéfilo de carteirinha. E esse era o filme favorito do meu pai.”
A expressão de James muda — de animado para triste. Seus olhos baixam, a franja cai novamente, escondendo-os.
Scott nota a mudança imediata e seu tom suaviza.
SCOTT
“Seu… pai.”
JAMES
“Não quero falar sobre isso.”
(voz dura, tentando se recompor)
“Nós não vamos entrar? Eu estou um pouco cansado e esta mala está um pouco pesada.”
Scott respeita o espaço de James. Coloca novamente a mão no ombro do garoto.
SCOTT
“É, a gente devia ir mesmo. Você consegue carregar suas próprias coisas ou quer ajuda?”
JAMES
“Eu dou conta.”
(erguendo a mala com esforço, mas determinado)
Ambos caminham em direção à entrada da mansão.
James atravessa a porta da frente da mansão. Seu queixo quase cai. O interior do Instituto é ainda mais impressionante do que o exterior. O teto alto, os vitrais coloridos, os detalhes de madeira talhada e o brilho do chão polido criam uma atmosfera de majestade misturada com tecnologia.
Ele segue Scott pelos longos corredores da mansão. Muitos alunos circulam por ali, todos únicos à sua maneira. James se impressiona com as diferenças físicas e estéticas de cada um, mas seus olhos não carregam julgamento – apenas fascínio e curiosidade.
Um garoto de pele verde e aparência reptiliana acena de forma simpática. James sorri e acena de volta com a mesma gentileza.
(voz interna de James)
“Eles não parecem estranhos. Eles parecem... livres.”
Scott guia James rapidamente pela escola – salas de aula modernas, uma cozinha industrial e um refeitório agitado. Eles finalmente entram na sala de estar.
A sala é aconchegante: um sofá branco enorme, duas poltronas e almofadas espalhadas. Todos dispostos em frente a uma TV de tela gigante. Alguns estudantes mais jovens estão relaxando por ali.
SCOTT
“É provavelmente aqui que você vai passar a maior parte do seu tempo.”
JAMES
“Ual! Nossa, acho que eu nunca vi uma TV tão grande em toda a minha vida.”
James observa a TV, boquiaberto. Scott ri do entusiasmo dele.
SCOTT
“Espere até ver o tamanho da tela de plasma da Sala de Perigo.”
ÁREA DOS DORMITÓRIOS
Os corredores se dividem em três alas: esquerda para os meninos, direita para meninas, e uma terceira ala mais reservada para alunos não-binários.
Scott para diante de uma porta na ala masculina.
SCOTT
“E este… será seu quarto.”
Ele abre a porta. O quarto é amplo, acolhedor, com duas camas bem posicionadas, armários e janelas altas que deixam entrar a luz natural. James olha com admiração.
JAMES
“Ual, isso é incrível.”
Ele observa as duas camas e lança um olhar curioso para Scott.
SCOTT
(sorrindo)
“Você está se perguntando por que há duas camas, não é?”
JAMES
“Você também pode ler pensamentos?”
SCOTT
(rindo)
“Não, não. Eu não consigo ler mentes. Eu só sou bom em ler pessoas.”
Antes que James possa responder, a porta do banheiro do quarto se abre. Uma nuvem de vapor toma o ambiente. Um garoto sai, coberto apenas por uma toalha na cintura.
Seu corpo é praticamente todo tatuado. Cabelos verdes em um moicano raspado dos lados. A atitude é tão marcante quanto a aparência.
SPIKE
“Ah cara, eu acho que acabei com toda a água quente da mansão.”
Ele caminha despreocupado, ainda sem notar a presença de James.
James o observa, imóvel.
Scott revira os olhos.
SCOTT
“Jesus Cristo, Spike. Como diabos você conseguiu usar toda essa água quente?”
SPIKE
“Caramba, Senhor Summers, eu não te vi parado aí. Até onde eu sei, os professores também devem bater na porta do quarto dos alunos antes de entrar.”
Scott suspira, esfregando as têmporas. Ainda que irritado, ele parece acostumado com o sarcasmo de Spike.
SCOTT
“Muito engraçado, espertinho. Só se vista. Tem alguém que eu quero que você conheça.”
SPIKE
“Estou bem assim. Não tenho vergonha do meu corpo. Não é isso que vocês ensinam por aqui? A ter orgulho?”
Ele desfila pelo quarto com autoconfiança exagerada. Encosta na parede com os braços cruzados, olhando para James com ar superior.
SPIKE
“Quem é esse aí?”
Scott suspira, olhando para James, depois para Spike.
SCOTT
“Este é James. Ele acabou de ser transferido de Nevada. Ele vai ficar neste quarto com você agora.”
Spike ergue uma sobrancelha. O sorriso em seu rosto se alarga como o de um predador.
SPIKE
“Ora, ora, ora. O que nós temos aqui? Uma ovelha novinha pronta para entrar no abatedouro.”
James imediatamente dá um passo para trás, encolhendo os ombros. Sua cabeça baixa, os olhos escondidos sob a franja.
Scott percebe a tensão. Dá um passo à frente, agarrando o antebraço de Spike.
SCOTT
“Pare com isso, Spike. Você está assustando ele.”
Scott observa James com preocupação. A linguagem corporal do garoto é quase... derrotada.
SPIKE
“Qual é, Senhor Summers, eu só estou dando as boas-vindas a ele. Só tenho um jeito peculiar de fazer isso.”
Spike se solta do braço de Scott com um movimento brusco, mantendo os olhos fixos em James.
SCOTT
“Você poderia pelo menos tentar não soar tão intimidador quando fala.”
James continua cabisbaixo. Seus ombros encolhidos. Ele tenta sumir no próprio corpo.
SPIKE
(revirando os olhos)
“Ok, tudo bem. Prometo dar o meu melhor pra ele se sentir em casa.”
Apesar das palavras, o tom é mais uma ameaça do que um gesto acolhedor.
James não olha para cima, mas ouve tudo. Ele reconhece bem esse tipo de cara. Já lidou com valentões a vida inteira. E Spike era um exemplar clássico.
Scott não gosta nem um pouco da forma como Spike está conduzindo a situação.
SCOTT
“Tudo bem, mas não exagere nas suas boas-vindas.”
Scott olha para James novamente. O garoto parece cada vez mais desconfortável. Ele sabe que uma impressão negativa está se formando... e rapidamente.
SPIKE
“Que merda de franja é essa? Mal dá pra ver seus olhos. Parece até a porra de um Shih-Tzu.”
Spike ri e se aproxima. James recua mais uma vez.
SPIKE
“Aí, cara, na boa... vou te dar um conselho de colega de quarto: corta essa merda.”
Ele toca na ponta da franja de James.
James congela. Algo dentro dele vira uma chave. O toque no rosto, a provocação, o medo antigo... tudo ferve por dentro.
Subitamente, James levanta a cabeça. Seus olhos escarlates brilham como fogo vivo.
JAMES
“NÃO!”
Uma onda de energia invisível explode ao redor dele. Spike é lançado para trás, seus pés saem do chão. Ele voa contra a parede e despenca no chão com um baque surdo.
SCOTT
“Whoa, whoa, whoa! O que diabos foi—”
Scott interrompe a frase ao ver Spike ser lançado. Ele se vira para James, que respira pesadamente. Os olhos ainda brilham em vermelho.
Spike está atordoado no chão. Scott observa a cena, tentando processar o que acabou de ver.
SPIKE
(ainda no chão)
“Que porra foi essa?”
SPIKE
“O que tem de errado com você? Você é maluco?”
Ele berra enquanto tenta se levantar.
James, em choque, começa a recuar lentamente. Ele balança a cabeça, tomado por arrependimento e confusão.
JAMES
“Eu... eu... Eu tenho que sair daqui.”
Ele dá meia-volta e sai correndo pelo corredor.
Scott solta um suspiro pesado, esfregando a ponta do nariz, sem saber exatamente o que dizer. Ele se vira para Spike, que já se apoia para se levantar.
SCOTT
“Você está bem?”
SPIKE
“Você acha?”
Spike sacode os braços, furioso.
SPIKE
“Onde foi que vocês acharam esse cara? Estão aceitando malucos agora?”
Scott balança a cabeça, tentando manter a calma.
SCOTT
“Olha, ele está apenas...”
Scott para. Não há uma explicação fácil.
SCOTT
“Ele só teve um passado difícil. Só isso. Ele só precisa de tempo pra se ajustar.”
SPIKE
“E com tantos quartos vagos vocês colocam ele comigo? O que eu fiz pra merecer essa punição?”
Scott cruza os braços, irritado.
SCOTT
“Temos escassez de quartos agora. Você vai ter que dividir com ele.”
Spike bufa, claramente insatisfeito.
SPIKE
“Então por que você não o colocou no seu quarto? Ah, já sei... a senhorita Grey já está ocupando essa vaga.”
Scott para. O comentário passou dos limites. Ele se aproxima de Spike, seus olhos semicerrados por trás dos óculos escuros.
SCOTT
“Já chega, Spike. Estou avisando.”
James corre pelo corredor como se o próprio inferno estivesse atrás dele. Seu coração dispara, o peito aperta, e os pensamentos se embaralham em espiral — "Eu estraguei tudo... sempre estrago tudo..."
Perdido nos próprios demônios internos, James não vê a garota loira que surge repentinamente na curva do corredor. O impacto é inevitável. Em um segundo, ambos estão no chão.
Cabelos dourados cobrindo o rosto, uma expressão atônita que logo dá lugar à irritação. Illyana Rasputin — ou Magia — se recompõe rapidamente e empurra James para longe, revelando os olhos azul-gelo furiosos.
ILLYANA
“Ei! Cuidado por onde anda!”
JAMES
“D-desculpe…”
James se levanta atordoado, cambaleando. Estende a mão para ajudá-la, mas Illyana afasta a mão dele com um tapa seco e se levanta por conta própria, sacudindo o uniforme com raiva contida.
ILLYANA
“É, é melhor você se desculpar. Você realmente não me viu?”
Ela o examina de cima a baixo com olhar desconfiado. James apenas encara, apavorado. Seu instinto diz para fugir de novo.
JAMES
“Desculpe, eu preciso ir.”
Ele se vira, pronto para escapar de novo. Já dobrava o corredor quando os olhos de Illyana brilham em azul. Num piscar de olhos, o chão se transforma em brasas, as paredes em chamas, o ar em enxofre e fumaça densa. Por um instante, James está no Limbo.
Mas tão rápido quanto foi, a cena se dissolve. Ele pisca — e está de volta à mansão. Atordoado. Illyana está parada diante dele, mãos na cintura, olhos semicerrados de forma provocativa.
JAMES
“Que porra acabou de acontecer aqui?”
ILLYANA
“Eu teleportei você. Ninguém nunca te ensinou boas maneiras? Não se atropela uma garota e deixa ela falando sozinha.”
James a encara com pavor. Sua mente ainda tenta entender se aquilo foi real ou um surto. De repente, passos ecoam pelo corredor. Scott Summers surge andando calmamente, mãos nos bolsos, observando a cena com desconfiança.
SCOTT
“Não assuste o novato, Illyana.”
Illyana se vira, bufando com teatralidade, cruzando os braços como uma adolescente que acabou de ser contrariada.
ILLYANA
“Ele não olhou para onde estava indo e bateu em mim!”
Ela o encara, mas também parece se divertir com a cara de espanto de James. Ele ainda tenta entender o que viveu naquele instante no limbo.
JAMES
“E por causa disso você me mandou para o inferno?”
Ele gesticula, ainda perplexo.
ILLYANA
(sorrindo, sarcástica)
“Basicamente.”
Scott geme, passando a mão pelo cabelo com frustração. Ele tenta manter a compostura, mas vê que Illyana pegou pesado.
James encara Illyana como se ela fosse um demônio — e de certa forma, ela é. Ele sente um leve toque em seu ombro e se encolhe levemente, mas não se afasta. Era Scott.
Scott sorri de forma tranquilizadora e faz um gesto com a cabeça.
SCOTT
“Venha comigo. Precisamos conversar.”
James hesita, depois segue, arrastando os pés. Até que para no meio do caminho. Ele respira fundo. A dor no peito é visível em seu olhar.
JAMES
“Eu quero ir pra casa.”
Scott para também. Se vira lentamente, levantando uma sobrancelha. Cruza os braços, cauteloso.
SCOTT
“O que você quer dizer com querer ir para casa?”
JAMES
“Quero ir embora. Foi um erro ter vindo pra cá. Esse lugar não é pra mim. Você viu o que eu fiz com aquele garoto tatuado… é isso que eu faço, eu machuco as pessoas. Não consigo controlar os meus malditos poderes.”
A voz de James falha. Seus olhos escarlates marejam. Ele tenta resistir às lágrimas, mas não consegue.
Scott observa com empatia. A raiva de antes é substituída por algo mais profundo: compaixão. Ele se aproxima e coloca a mão no ombro de James, um toque leve, como se estivesse dizendo que está ali.
SCOTT
“Ei… ei…”
Uma pausa. Ele hesita, depois dá um tapinha no ombro do garoto.
SCOTT
“Calma, vai ficar tudo bem…”
JAMES
“Não, não vai. Você sabe como eu vim parar aqui, Scott? Xavier te contou onde me encontrou? Se soubesse a verdade, não me trataria tão bem.”
Scott franze o cenho. Algo no tom sombrio de James faz um alerta acender dentro dele.
SCOTT
“Não… não sei como você chegou aqui. Por quê? O que aconteceu?”
James respira fundo. E começa.
JAMES
“Os garotos mais velhos do reformatório onde eu morava sempre me perseguiam. Me batiam, me chamavam de aberração. Até aí tudo bem, já estou acostumado a ser tratado assim. Mas um dia isso mudou quando eles me viram sem lente de contato. Por algum motivo, eles ficaram bem revoltados ao ver meus olhos vermelhos.”
Scott escuta em silêncio. O olhar firme, atento.
JAMES
“Uma noite, voltando da escola, esses garotos — cinco no total — me encurralaram em um beco. Eles me espancaram, até eu apagar. Até então, meus poderes ainda não tinham se manifestado.”
Ele faz uma pausa, seus dedos tremem levemente. Scott permanece calado.
JAMES
“Eu acordei no beco, coberto de sangue... mas não era meu. Minhas feridas estavam curadas, como se nunca tivessem existido. Olhei ao redor… e vi a cena mais horrenda da minha vida. Havia sangue, muito sangue… e pedaços de corpos espalhados. Era como se um animal selvagem tivesse estado ali.”
Scott fica estático. Seus olhos atrás dos óculos tentam esconder o choque crescente.
SCOTT
(voz baixa)
“Espere… você está dizendo que… que você… fez tudo isso?”
James balança a cabeça lentamente.
JAMES
“Eu não me lembrava do que tinha acontecido. Só que desmaiei de tanto apanhar. Fugi, coberto de sangue. Não cheguei longe. A polícia me pegou e me jogou em uma cela. Não demorou até Xavier aparecer. De alguma forma, ele conseguiu me tirar de lá. Ele entrou na minha mente e me mostrou o que eu tinha feito.”
Scott arregala os olhos, o corpo rígido como pedra. James continua, firme, sombrio.
JAMES
“Eu vi tudo. Todas as atrocidades. Eu era o animal selvagem. Eu os matei, Scott. Todos os cinco. Eu os destrocei sem sequer tocar neles. Xavier disse que meu poder é hematocinese. Eu posso manipular o sangue das pessoas. Foi assim que eu acabei com eles.”
O silêncio pesa como chumbo no corredor. O olhar de Scott se perde por um segundo.
JAMES
“Foi assim que eu descobri que era um mutante. Foi assim que vim parar aqui. Eu sou perigoso, Scott. Eu deveria estar trancado em uma cela. Ou numa sala acolchoada de um hospício. E não em uma mansão luxuosa, recebendo boa educação e convivendo com outros alunos. Eu não sou um aluno. Sou a porra de um assassino.”
Ele ergue o olhar. Um olhar que carrega culpa, dor e... sinceridade crua.
JAMES
“Agora me diz, Scott, seja sincero. Depois de ouvir tudo o que eu te contei... você ainda acha que aqui é o meu lugar?”
Scott fica em silêncio. Ainda processa. Ainda digere. As palavras de James ecoam em sua mente, como se tivessem sido cravadas em ferro quente. Ele sabe que deveria responder algo reconfortante. Mas não consegue.
Ele passa a mão pelos cabelos, nervoso. O peso daquela revelação é maior do que ele esperava. E, no fundo, ele sabe que precisa conversar com Xavier — urgentemente.
SCOTT
(baixa a cabeça, respirando fundo)
“Então… você não apenas machucou aqueles caras… você os matou.”
JAMES
(seco, firme)
“Não, Scott. Eu não apenas matei aqueles caras. Eu os mutilei… sem fazer esforço algum.”
A espinha de Scott gela. A realidade o atinge como um soco. James não é só um mutante — é uma bomba-relógio.
ESCRITÓRIO DE XAVIER – NOITE
Scott caminha a passos firmes pelos corredores da mansão. Sua mandíbula está travada, os punhos cerrados, e sua mente fervilha com as últimas palavras de James. Ele tenta manter a calma, mas seu corpo denuncia a raiva e a preocupação.
Pouco antes, ele deixara James sob os cuidados de Jean Grey.
FLASHBACK – CORREDOR ANTERIOR
Scott para em frente à Jean, que observa James com expressão preocupada.
SCOTT
Fica com ele. Não o deixe sair daqui, Jean. Nem por um segundo. Use seus poderes se for necessário, mas ele não pode sair da mansão.
Jean concorda com um leve aceno de cabeça. O olhar dela se suaviza quando se vira para James, que parece ainda mais quebrado do que antes.
CORTE PARA O ESCRITÓRIO DE XAVIER
A porta se abre com firmeza. Scott entra sem bater, visivelmente abalado. Charles Xavier está em sua cadeira de rodas, diante da janela, contemplando os jardins noturnos. A atmosfera é silenciosa, mas carregada de tensão.
SCOTT
(direto, sem rodeios)
Professor… precisamos conversar.
XAVIER
(calmamente, sem virar-se)
Acredito que sim, Scott. Seus pensamentos estão turbulentos hoje.
(gira a cadeira para encará-lo)
Sente-se. Me diga o que o aflige.
Scott suspira, pesado. Senta-se na cadeira em frente à mesa. Entrelaça os dedos sobre o colo, respira fundo novamente, e encara o Professor com expressão dura.
SCOTT
É sobre o novo aluno. James.
XAVIER
(muito calmo)
Sim, claro que é. Você está preocupado que a permanência de James aqui possa colocar a vida dos outros alunos em perigo. Estou certo?
Scott pisca, ligeiramente surpreso. Não deveria se surpreender por Xavier ter lido seus pensamentos, mas mesmo assim... era desconcertante. Sua carranca se aprofunda.
SCOTT
Ele é perigoso? Quero dizer… você sabe o que ele fez. Ele é um assassino.
XAVIER
Não diria que “assassino” seja o termo certo para descrever James, Scott. Mas sim, de fato ele matou pessoas. E com certeza... ele é perigoso.
(pausa)
Talvez seja o mutante mais poderoso que já passou pelo Instituto.
Scott empalidece. Ele leva a mão aos cabelos e os bagunça em um gesto automático de frustração.
SCOTT
Então por que diabos você o trouxe aqui?! Você não achou necessário me dizer que o garoto novo é um assassino tão poderoso quanto uma arma viva?!
XAVIER
(voz firme, porém paciente)
E o que você recomendaria que eu fizesse, Scott? Que eu deixasse o garoto ser preso pelos humanos, que não têm a menor ideia do poder mortal que jogaram em uma cela?
(pausa)
Que James, sem entender o que é, tivesse outro surto e cometesse outra chacina? Ou pior… que Magneto o encontrasse antes de mim?
Scott fecha os olhos, cerrando os punhos com força. Ele odeia quando Xavier está certo. E odeia ainda mais não ter uma resposta imediata.
SCOTT
Então nós apenas o quê? Esperamos e rezamos para que nada dê errado? Que ele não perca o controle e cause um massacre?
XAVIER
(com empatia, mas sem ceder)
Eu entendo a sua preocupação, Scott. E compartilho dela.
(pausa prolongada)
Mas não podemos esquecer que James é só um adolescente. Um garoto rejeitado pela mãe no instante do nascimento, quando ela viu seus olhos vermelhos pela primeira vez.
Ele cresceu em orfanatos, passou de lar em lar, até terminar num reformatório. Foi espancado, abusado, ignorado. A única linguagem que conheceu foi a da violência.
(com voz mais firme)
Quando seus poderes se manifestaram… é claro que foram brutais. Era tudo o que ele conhecia.
Mas eu o trouxe aqui justamente para apresentá-lo a algo novo: amor, bondade, respeito, segurança.
Nós podemos ajudá-lo, Scott. Mas só se fizermos isso juntos.
(olhando fixamente)
O que me diz?
As palavras caem como pedras no coração de Scott. Ele desvia o olhar, o maxilar tenso, engolindo seco. Ele revê mentalmente a expressão de James, o medo nos olhos, o grito de desespero, o trauma escancarado.
E então… a memória mais antiga. Ele mesmo. Um garoto assustado, de olhos cobertos por uma venda, sem saber se era monstro ou humano.
SCOTT
(voz mais baixa, emocionada)
Eu entendo, Professor. Eu realmente entendo.
É só que… é uma situação perigosa.
E se não pudermos ajudá-lo?
E se os poderes dele saírem do controle… e ele atacar outro aluno?
Xavier inclina-se para frente, com um sorriso leve e nostálgico.
XAVIER
Eu tive essa mesma preocupação… com um garoto anos atrás.
Os poderes dele eram destrutivos demais. Perigosos demais.
Demorei a convencê-lo de que ele não era um caso perdido. De que ele podia controlar seus dons… de que podia ser um herói.
(sorri, orgulhoso)
Estou falando de você, Scott.
Scott congela. A comparação o desarma por completo. Seus ombros caem, como se um peso antigo tivesse acabado de ser colocado em suas mãos.
XAVIER
Eu fiz isso por você, Scott.
Agora é hora de você fazer o mesmo por James.
O que me diz?
Scott parece lutar internamente com aquilo. Ele olha para o chão, depois para Xavier. O silêncio é longo… pesado. Mas quando ele responde, sua voz carrega uma convicção renovada.
SCOTT
(com firmeza, finalmente rendido)
Tudo bem, Professor.
Eu vou te ajudar com ele.
Nós faremos isso juntos.
Xavier sorri de forma serena. Ele sabia que Scott entenderia. Sempre entendeu.
INTERIOR DA SALA DE ESTAR – NOITE
A iluminação é suave. Uma lareira baixa crepita ao fundo, lançando sombras dançantes pelas paredes do salão silencioso. James está sentado em um dos sofás, a cabeça baixa, os ombros encolhidos como se quisesse desaparecer. Seus olhos escarlates observam o chão. Diante dele está Jean Grey, tranquila, serena, mas alerta.
Jean sorri suavemente para ele. Mesmo sem usar seus poderes, ela sente a tempestade de emoções fervendo dentro do garoto.
JAMES
(pensando)
Ela é bonita. Deve ter a mesma idade que o Scott…
(ele aperta os lábios)
Ela está aqui pra me vigiar. Não é só simpatia.
Jean percebe o desconforto e tenta amenizar o ambiente. Seu tom é suave, quase maternal.
JEAN
Então, James, como você está se sentindo? Você está bem acomodado?
JAMES
Você quer a verdade? Estou me sentindo péssimo, e acho que o meu colega de quarto me odeia, mas não posso culpá-lo… eu o arremessei contra a parede usando os meus poderes.
(Ele suspira, com visível arrependimento.)
JAMES
Por outro lado… eu não acho que eu vá continuar aqui de qualquer forma. Então nada disso importa.
Ele desvia o olhar. Sua franja cobre parte do rosto, escondendo sua expressão abatida.
Jean cruza as pernas e inclina levemente a cabeça, tentando encontrar um ângulo de empatia.
JEAN
Não subestime o Spike. Ele é rebelde e até um pouco arrogante, mas não é cruel. Ele só precisa de tempo pra se ajustar. Todos nós precisamos.
Ela se aproxima um pouco mais no sofá, diminuindo a distância entre eles. Sua expressão permanece gentil.
JEAN
Por que você acha que não vai ficar por muito tempo?
JAMES
Porque esse não é o meu lugar. Eu já disse isso pro seu namorado, mas parece que ele é cabeça-dura demais pra entender.
(ele ergue o olhar, com um sorriso amargo)
Ele acha que pode me salvar. Ele não disse isso, mas eu pude ver na expressão do rosto dele. Ele tem um certo Complexo de Messias.
(pausa)
Eu sou uma causa perdida. E tenho plena consciência disso.
Jean deixa escapar uma risada leve, involuntária. Ela se diverte, mesmo que a situação não seja exatamente engraçada.
JEAN
Scott tem uma tendência a ficar um pouco confiante demais. Ele tem aquela atitude de "salvar o mundo", mas eu não diria que ele tem um complexo de "salvar pessoas".
(Ela sorri com os lábios, e seu olhar suaviza.)
JEAN
E eu não me precipitaria em rotular você como uma causa perdida. Tenho a sensação de que você não está tão perdido assim.
James desvia o olhar novamente, tocado pelas palavras, mas ainda envolto em sua dor.
JAMES
Você pode relaxar. Eu não vou tentar fugir.
(Ele a encara, avaliando-a.)
JAMES
Eu não conseguiria, não é? Scott sabe o quanto meus poderes são perigosos. Ele nunca te colocaria em perigo.
Se ele escolheu você pra me deter, caso eu tentasse alguma coisa estúpida, é porque você daria conta do recado.
(sorri de canto, admirado)
Eu não teria a menor chance, não é?
Jean dá um pequeno sorriso de canto e assente, sem arrogância, apenas honestidade.
JEAN
Digamos que Scott sabe que não deve me subestimar.
(Ela se recosta no sofá, os olhos analisando James com interesse genuíno.)
JEAN
A propósito, você se importa se eu lhe perguntar uma coisa?
JAMES
Pode perguntar.
Jean hesita um segundo, como se procurasse a melhor forma de formular a pergunta.
JEAN
Eu nunca conheci ninguém com o poder de causar o tipo de… destruição que você causou.
Eu só estava pensando… Como você descobriu seus poderes?
Os olhos de James escurecem, sombrios. Seu corpo se encolhe ligeiramente, e a leve abertura emocional de antes fecha como uma armadura. Ele levanta a cabeça, revelando seus olhos escarlates em sua intensidade máxima.
JAMES
Você sabe, não é? E no momento só Xavier e Scott sabem o que eu fiz. Scott não teria tido tempo de te contar naquela hora.
Esse é o seu poder. Você pode ler pensamentos, não pode, Jean Grey?
Jean se surpreende com a dedução de James. Ela hesita, pega de surpresa, mas logo se recompõe e responde com sinceridade.
JEAN
Sim, eu consigo ler mentes.
Mas não faço isso com muita frequência. E só faço quando preciso.
(Ela o encara nos olhos, com suavidade.)
JEAN
Você se incomoda que eu saiba?
JAMES
Nesse momento, a única coisa que me incomoda é o jeito que as pessoas aqui tratam o que eu fiz como se não fosse nada.
Como se eu merecesse ser perdoado.
Como se eu não fosse um monstro.
(Sua franja volta a cobrir o rosto enquanto ele se recolhe novamente.)
Jean sente a onda de dor vindo dele como uma maré. Ela se aproxima e toca gentilmente o ombro dele.
JEAN
Olhe para mim, James.
(Ele hesita, mas levanta o olhar, encontrando os olhos verdes de Jean.)
JEAN
O que você fez não define quem você é.
Todos nós cometemos erros, mas isso não faz de você um "monstro".
James fica em silêncio por um momento… e então, desafia.
JAMES
Então veja. Entre na minha mente e veja com os seus próprios olhos.
Eu te dou a minha permissão, senhorita Grey.
Se depois de ver tudo o que eu fiz, você continuar com essa linha de pensamento — de que eu não sou um monstro — eu prometo que vou acreditar em você.
Jean engole seco. O desafio é claro. Ela respira fundo, coloca a mão na testa de James, e fecha os olhos.
TRANSIÇÃO – MENTE DE JAMES – FLASHBACKS
Pancadas. Risos cruéis. James ensanguentado. O beco. Os gritos. O sangue voando como lâminas dançantes no ar. Pedaços de corpos caindo no chão. Os olhos vermelhos acesos. As veias de outros meninos sendo puxadas para fora do corpo.
Jean abre os olhos abruptamente, arfando. Uma lágrima escorre por seu rosto. Ela encara James, tremendo.
JAMES
Então, senhorita Grey…
Você ainda acha que eu não sou um monstro?
Ainda acredita que eu posso ficar aqui e conviver com seus alunos normalmente?
Antes que Jean possa responder, Scott entra calmamente na sala. Ele percebe o estado emocional de Jean, mas não diz nada.
SCOTT
Obrigado por ficar com James, Jean.
Agora eu preciso conversar com ele em particular, se você não se importar.
Jean se levanta, ainda abalada. Ela olha uma última vez para James e sai em silêncio. Scott se senta ao lado de James, sem pressa.
James o observa, esperando por uma reprimenda. Mas o que recebe é algo completamente diferente.
SCOTT
Quando eu cheguei aqui, eu também me achava um monstro.
Meus poderes colocavam todo mundo em risco. Eu não conseguia controlar, machuquei pessoas sem querer…
Mas tive ajuda. E aprendi a controlar isso.
Posso te ajudar também, James.
James escuta em silêncio. A dor ainda está lá, mas agora há uma centelha de algo mais.
JAMES
Eu entendo…
Mas e se eu perder o controle de novo?
E se eu machucar outra pessoa?
Não consigo me perdoar pelo que fiz.
Scott se inclina para frente, falando com firmeza.
SCOTT
A escolha é sua, James.
Você pode sair por aquela porta e esperar se tornar o monstro que teme ser…
Ou pode ficar.
E com a nossa ajuda, se tornar a pessoa que você quer ser.
James respira fundo. Ele encara o chão, depois encara Scott. A dúvida ainda está lá, mas algo dentro dele se move.
JAMES
Não sei o que fazer, Scott…
Não sei se sou forte o suficiente pra isso…
SCOTT
Eu sei que você é mais forte do que imagina, James.
Mas não acho que consiga fazer isso sozinho no momento.
Eu, Xavier, Jean… estamos aqui pra você.
Você não precisa mais lidar com tudo sozinho.
Juntos, somos mais fortes.
(sorri)
Esse é o lema dos X-Men.
Bom… se ainda não é, agora vai passar a ser.
Então, o que me diz?
James encara Scott. O silêncio se arrasta… até que ele finalmente assente.
JAMES
Tudo bem.
Eu vou ficar.
Vou tentar o meu melhor pra controlar meus poderes… e compensar o que fiz.
Mas preciso da sua ajuda.
Preciso de toda a sua ajuda.
SCOTT
Eu prometo…
Você vai ter toda a ajuda que precisar.
(Scott estende a mão. James a encara, hesita, e a aperta com firmeza.)
SCOTT
Então vamos tornar isso oficial.
Seja bem-vindo à Academia X, James.
Bem-vindo à nossa família.
James segura firme a mão de Scott. Um meio sorriso aparece — tímido, vacilante — mas verdadeiro. Pela primeira vez em muito tempo, ele sente que talvez… só talvez… haja esperança.